A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan)

Título Original: A Visit From the Goon Squad
Editora: Intrínseca
Número de Páginas: 336
Gênero: Romance

Excepcional. Esta é a melhor palavra que posso utilizar para sintetizar os meus pensamentos sobre o livro. Mas calma, não corram com muita sede ao pote! Há algumas coisas a respeito de A Visita Cruel do Tempo que vocês primeiramente devem saber para que não acabem decepcionando-se com a leitura. Vou explicar-lhes o porquê.

Ao iniciar o livro, não conhecia absolutamente nada a respeito da história, por isso não tive muitas dificuldades para me adaptar com o estilo de escrita, e sim uma agradável surpresa ao começar a lê-lo. Posso dizer que pelo menos em caráter pessoal, este é um dos livros mais dinâmicos que já li e consegui me envolver de tal forma, que foi direto para os meus favoritos, mas imagino que é daquele tipo de leitura que, ou se ama, ou odeia.

Primeiro, que para conseguir situar-se na história, depende apenas de cada  um. Mas como assim? Acontece que muito ousadamente, a Jennifer Egan, não optou pelos caminhos normais da escrita, e decidiu seguir uma linha completamente tortuosa para atingir o seu objetivo. Os capítulos do livro têm uma grande alternância de personagens, e mais, a leitura é uma verdadeira máquina do tempo.

Em um fluxo contínuo de narrativas assustadoramente reais, hora nos deparamos com uma cleptomaníaca num encontro amoroso, para logo depois regressarmos vários anos no calendário e conhecer a história do seu ex-chefe, mencionado apenas em uma mera conversa durante um encontro. Quando estamos nos acostumando a conhecê-lo um pouco mais, no próximo capítulo adentramos em uma narrativa completamente diferente, sobre o conhecido de alguém que havia sido citado certa vez, talvez algum amigo de escola do último narrador. Sabe aquelas situações em que um amigo conhece um amigo e de certa forma o círculo acaba se fechando? É assim que as coisas acontecem.

Então imagine que em nenhum desses capítulos é nos dado de bandeja em que ano estamos situados. Uma hora nos encontramos em 2006, mas apenas podemos saber ao certo se prestarmos atenção a um diálogo onde um dos personagens conversa a respeito do ataque às Torres Gêmeas e menciona de passagem que já se passaram cinco anos desde então. Se neste mesmo ano o filho de tal personagem tinha 9 anos de idade, em outro capítulo sabemos que ele acabou de nascer, o que possibilita-nos descobrir o ano em que agora nos encontramos. Seja através de cálculos de idades ou situações, é certo que em cada capítulo iremos encontrar pistas soltas aqui e ali, que nos levará a descoberta do ano exato em que estamos no momento, basta ficarmos atento.

Parece confuso à primeira vista, eu sei. Mas sabe qual o mais curioso de tudo isso? Em nenhum momento chega a ser confuso. É tudo tão maravilhosamente elaborado, tão incrivelmente interligado, que sempre que adentrava em uma nova história, ficava atenta à próxima dica que iria receber, para que pudesse me situar no tempo e espaço mais uma vez... e sinceramente nunca imaginei que tal experiência pudesse ser tão divertida.

A leitura nunca nos dispersa a atenção. Os personagens são tão bem desenvolvidos em suas histórias simples, porém fascinantes, que é quase possível enxergar vida em cada um deles. Durante o livro, o conhecido de alguém que tenha aparecido apenas de relance pode vir a adquirir uma importância enorme alguns capítulos à frente, ganhando várias páginas exclusivas para ele, e nos proporcionando um novo ponto de vista não imaginado.

Pontos de vistas, inclusive, são o que mais iremos encontrar na narrativa perspicaz da Egan. Seja da sua ex-secretária, esposa, filha, ex-chefe da ex-esposa, filha da ex-chefe da ex-esposa, tudo encaixa-se no seu devido lugar, no seu devido tempo, como um quebra-cabeça perfeito desenvolvido pelas lembranças e experiência de cada personagem. Apenas uma autora com completo domínio sobre as palavras e sobre o seu trabalho, conseguiria mesclar diversos estilos de narrativas e vozes em um único livro, e a Egan conseguiu fazê-lo tão habilmente que não surpreende o Pulitzer anunciado na capa.

"Susan virou-se para ele e de repente disse: "Vamos nos esforçar para ser sempre assim." E nessa hora os seus pensamentos estavam tão sintonizados que Ted soube exatamente porque Susan tinha dito aquilo (...) porque ela havia sentido a passagem do tempo. E então Ted também o sentiu, na água escura que pulava, nos barcos que passavam depressa, no vento - movimento e caos por toda parte -, e segurou a mão de Susan e disse: "Sempre. Vai ser assim sempre.""

O leitor é transportado com bilhete de ida e volta através da década de 70, passando por todas as seguintes até o derradeiro ano de 2021, ao som de músicas, sons e cores - é quase possível escutar a trilha sonora do livro em nossas mentes - a música aqui, também funcionando como instrumento catalizador do tempo, pois tem melhor forma de caracterizar uma época do que através daquilo que cultuamos? 

O livro nos deixa aquela sensação de nostalgia, foi escrito para ser degustado e sentido aos poucos, pois não é possível entendê-lo sem antes experimentá-lo. Por isso, a sinopse tão pequena e não esclarecedora. Por isso, a impossibilidade de escrever sobre algum personagem em particular, tamanha a importância de todos eles para a história, pois a essência é a mensagem, e o maior protagonista é o tempo. Sabe aqueles filmes onde acontecem várias narrativas paralelas interligando-se pouco a pouco? A Visita Cruel do Tempo tem um tanto disso, que vai tomando forma através das décadas, mas seria pouco defini-lo assim. 

É uma viagem através da música, dos arrependimentos, dos sonhos perdidos, realizados, ou nunca encontrados. De tudo que imaginamos, e de como as coisas podem tomar uma forma completamente impensável daquilo que mais ansiávamos. Acima de tudo, é um livro que nos mostra as facetas do tempo - ele é implacável e cruel? Sim... mas também pode ser inusitadamente reconfortador. O certo é que virá para todos, está em todo lugar a nossa volta, para o bem ou para o mal, mas é apenas quando sentimos fisicamente as suas mudanças que acordamos para o fato de que nunca será possível voltar atrás.

"Alex fechou os olhos e escutou: o portão de ferro de uma loja era abaixado. Os roucos latidos de um cão. Caminhões passavam nas pontes. A noite aveludada em seus ouvidos. E o zumbido, sempre aquele mesmo zumbido, que talvez no final das contas, não fosse um eco, mas sim o barulho do tempo que passa."

19 comentários:

HONORATO, Sandro disse...

Duda :)
Pra te falar a verdade esse livro eu não conhecia :O
Tem em ebook será? porque estou sem dinheiro ultimamente kkkkk
Beijos e tenha uma excelente semana

RIMAS DO PRETO

Carolina Mello disse...

Duda, adoooorei a resenha!
Eu já vi esse livro na livraria mas não tinha vontade de comprar. Agora tenho.
Pelo que você falou, a estória me lembrou um pouco o filme As Horas (que eu adoro) já que ambos contam a estória de vários personagens e em épocas distintas. Talvez eu esteja enganada, mas foi isso que me pareceu à primeira vista.
Essa leitura deve ser mesmo maravilhosa!

Beijos, Carol.
www.perdidanaestante.blogspot.com

Lucas Martins disse...

Duda, que demais, sério! Não imaginava uma narrativa tão bacana assim...
Aliás, assim como você, o livro era um completo desconhecido... Só ouvi falar por cima, os comentários e tal, e o fato de ter ganho o Pulitzer...
Eu quase comprei o livro esses dias, mas acabei levando um infantil, hahahha bobo eu? É o livro do mês do desafio que eu estou participando, então...
Eu estava tentando não ler resenhas do livro, mas a sua está excelente, Duda! Estou com ainda mais vontade de ler (comentário clichê, não? Hahaha)
Mas, de verdade, saber que você gostou me deixou com ainda mais vontade.
(Aliás, quando eu vi na livraria fiquei super curioso por causa de uns gráficos - ?- no fim do livro)
Enfim!
Parabéns pela resenha, Duda! Arrasou!
Bjão!

Aione Simões disse...

Nossa, Duda, eu quero ler esse livro agora depois dessa sua resenha!
Ele parece ser complexo, genial e maravilhoso!
Muito bom ver que ele não é confuso e, ao contrário, acaba sendo muito dinâmico!
Fiquei curiosa pra ver esse seu estudo aprofundado e pra ver qual seria o resultado de sua leitura em ordem cronológica!
Sua resenha está incrível, querida!
Beijão!

Anônimo disse...

Oi Duda, estou de olho nesse livro faz tempo, mas ainda não havia me decidido por ele, mas agora lendo sua resenha e vendo que você adorou, fiquei louca para ler. ainda mais que você se aprofundou na leitura e eu fiquei louca pra discutir tudo com vocÊ, mas acho que isso vai ficar pra depois, pois eu tenho um pilha de livros que não baixa, kkk
Adorei sua resenha, beijos
MÔnica Carneiro ´estou fora do google, tá? desculpa

Andressa Tomaz disse...

Oi Duda!
Sempre, desde que vi esse livro na Saraiva, tenho uma vontade enorme de comprá-lo. Primeiro porque como já disse na sua caixinha de correio, a capa é maravilhosa! Segundo por já vi alguns comentários positivos, mas ainda não tinha lido nenhuma resenha.
Acho que pelo que você citou acima, eu adoraria o livro, apesar de talvez achá-lo um pouco confuso as vezes (foi o que me pareceu), com certeza vou ler!
Sua resenha está ótima e super completa, e se eu ler mesmo o livro, vou te procurar para comentar.

Beijos!

Aline Gasparini disse...

Poxa vida Duda, depois da sua resenha impossível não ficar louca para ler esse livro. Confesso que quando fiquei sabendo do lançamento acabei nem dando atenção, não sei porque mais não me interessei, no entanto as características que você ressaltou me deixaram super curiosa, adoro principalmente quando há alternância de personagens. Enfim, resenha incrível :)

Beijos&beijos
Book is life

Mariana Ribeiro disse...

Olá, Duda!
Confesso que à primeira vista nem tinha me interessado pela leitura desse livro, mas agora com a sua análise a respeito, sinto que preciso dar uma chance e conferir de perto a história.
Parece ser bem profunda e emocionante, quero muito ler!
Adorei a sua resenha!
Bjos.

Mariana Ribeiro
Confissões Literárias.

Giil Almeida disse...

Poxa, que resenha legal!
Eu não conhecia muito sobre o livro,mas, fiquei com muita vontade de ler.
Estou curiosa agora!
Parece uma história muito bem elaborada mesmo, e bem interessante.
Assim que tiver oportunidade irei lê-lo!

Bjos,
Verbologia Pink

Angélica Roz disse...

Oi Duda!
Tenho visto propaganda desse livro lá no Skoob e ando bem curiosa!!
E, agora, com a sua resenha... fiquei doida para lê-lo!
Essa sensação nostálgica é boa demais!! E a trama parece ser interessante. :)

Beijos!

Feliz Dia do Blogueiro! \o/

Aline Coelho disse...

Nossa Duda que texto maravilhoso, vc realmente destrinchou esse livro e percebi que vc adorou ele. Parabéns a autora pelo trabalho. Não é muito meu estilo de livro =/ ele é um verdadeiro teste de atenção né!!!

jayane disse...

Nossa acho que vou gosta desse livro,me lembrou o livro A mulher do viajante do tempo,pois na historias tem umas passagem que volta no tempo quando comecei a ler pensei que ia me perder,mas foi super fácil de ler,acho que entenderei bem esse livro quando eu for ler.

territoriodascompradorasdelivro disse...

Oi, tudo bom?
Gosto muito de ler resenhas, mesmo não tendo o livro, tento observar, aprender e vê se gostarei do livro.
E você falou muito bem dele, adorei.
Território das garotas
@territoriodg
Bjss *-*
Passa lá no blog? http://tinyurl.com/6omp9rp
http://territoriodascompradorasdelivro.blogspot.com/

Ricardo Biazotto disse...

Duda ... que reenha fantástica.
Confesso que não conhecia muito bem o livro, mas com sua resenha já achei interessante a maneira como a autora usa do tempo para construir a narrativa e se antes o livro não chamou tanta a anteção (digo isso por não conhecer, é claro), mudou e muito com a resenha. Gosto quando as histórias são "jogadas" para tudo se interligar com o tempo.
Parabéns :)

Beijos
Ricardo - www.overshock.blogspot.com

Vanessa Tourinho disse...

Oi Duda!
Escrever capítulos em ordem de tempo alternada e conseguir não deixar o leitor confuso é um talento para poucos escritores.
Já queria muito ler este livro. Fiquei ainda mais curiosa, para conhecer os personagem e a história.
Quando puder ler, adoraria discutir sobre o livro com você.
"excepcional", essa palavra é gritante, e estou me segurando para não comprar o livro da Jennifer agora. :/

Beijos.

Luana Feres disse...

Primeira resenha que leio desse livro, Duda, e fico feliz que tenha tido a oportunidade porque seu entusiasmo pela obra só me despertou curiosidade em continuar a ler sobre o que o livro se tratava. Confesso que sim, pareceu confuso para mim. Entretanto, sou daquelas que sempre sabe o que aconteceu no final quando um amigo ainda não entendeu; consigo captar pequenas coisas durante toda a leitura ou assistindo um filme. Enfim, creio que eu não vá ficar tão confusa. Claro que deve demorar alguns capitulos até que nos acostumemos com a narrativa, mas isso sempre acontece quando um livro foge da linha convencional. Vou tentar ler assim que possivel. :D

Beijos!

Michelle' disse...

Oi Duda!
Amei a sua resenha.
Foi a primeira que eu li a respeito desse livro e me surpreendi bastante.
Não sabia muito bem do que se tratava e não imaginei que fosse algo tão complexo e ao mesmo tempo encantador.
Com certeza esse Pulitzer que ela ganhou foi mais do que merecido, já que não encontramos tantos autores que conseguem mesclar tudo isso num livro só de uma maneira que te faça querer saber mais sobre a história.
Beijinhos
Michelle, Minha Bagunça

Máh disse...

Acabei de escrever minha resenha desse livro. Nela, também disse que quero arriscar uma leitura em ordem cronológica. Será que nossas anotações sobre os anos bateram?

Beijos!

Durval disse...

Acabei de ler VCT, fiquei muito impressionado. Um livro magnífico, quanto mais eu lia mais gostava. A Jennifer tem um humor cáustico, sensacional. O capítulo do general é impagável. A apresentação em ppt é magistral, ela usa muito bem a linguagem gráfica. O último capítulo é profundamente filosófico, um fecho magnífico.
Parabéns pela ótima resenha. Participo de um clube do livro e vamos discutir VCT no final deste mês. Vou recomendar sua resenha à turma.
Abraços
Durval

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