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by • março 19, 2012 • ResenhasComments (21)2052

[Resenha] A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

Excepcional é a melhor palavra que posso utilizar para sintetizar meus pensamentos sobre este livro. Não conhecia absolutamente nada a respeito da história e tive uma agradável surpresa. Primeiro nós precisamos nos encontrar cronologicamente na história. Muito ousadamente, a Jennifer Egan não optou pelos caminhos normais da escrita e decidiu seguir uma linha completamente tortuosa para atingir seu objetivo. Os capítulos do livro têm uma grande alternância de personagens, e mais, a leitura é uma verdadeira máquina do tempo.

Hora nos deparamos com uma cleptomaníaca num encontro amoroso, para logo regressarmos vários anos no calendário e conhecer a história de seu ex-chefe que havia sido mencionado numa mera conversa durante o encontro. Quando estamos nos acostumando a conhecê-lo um pouco mais, há, no próximo capítulo, uma narrativa completamente diferente sobre o conhecido de alguém que havia sido mencionado certa vez, talvez algum amigo de escola do último narrador. Sabe aquelas situações em que um amigo conhece um amigo e, de certa forma, o círculo acaba se fechando?

Então imagine que em nenhum desses capítulos é dado de bandeja em que ano estamos situados. Uma hora nos encontramos em 2006, mas apenas podemos saber ao certo se prestarmos atenção a um diálogo onde um dos personagens conversa a respeito do ataque às Torres Gêmeas e menciona que já se passaram cinco anos desde então. Se neste mesmo ano o filho de tal personagem tinha 9 anos de idade, em outro capítulo sabemos que ele acabou de nascer, o que possibilita descobrir o ano em que agora estamos. Seja através de cálculos de idades ou situações, é certo que em cada capítulo iremos encontrar pistas soltas aqui e ali que nos levará a descoberta do ano exato em que estamos no momento.

É tudo tão bem elaborado, tão incrivelmente interligado, que sempre ficava atenta à próxima dica que iria receber para que pudesse me situar no tempo e espaço mais uma vez. É uma experiência diferente e divertida que me tirou da zona de conforto.

A leitura nunca nos dispersa a atenção. Os personagens são bem desenvolvidos em suas histórias simples, porém fascinantes. É quase possível enxergar vida em cada um deles. O conhecido de alguém que tenha aparecido apenas de relance pode vir a adquirir uma importância enorme alguns capítulos à frente, ganhando várias páginas exclusivas para ele e nos proporcionando um novo ponto de vista não imaginado.

Pontos de vistas, inclusive, são o que mais iremos encontrar na narrativa da autora. Seja uma ex-secretária, esposa, filha, ex-chefe da ex-esposa, filha da ex-chefe da ex-esposa, tudo se encaixa no seu devido lugar, no seu devido tempo, como um quebra-cabeça perfeito desenvolvido pelas lembranças e experiências de cada personagem através dos anos. A autora consegue mesclar diversos estilos de narrativas e vozes em um único livro tão habilmente que não surpreende o Pulitzer anunciado na capa.

“Susan virou-se para ele e de repente disse: “Vamos nos esforçar para ser sempre assim.” E nessa hora os seus pensamentos estavam tão sintonizados que Ted soube exatamente porque Susan tinha dito aquilo (…) porque ela havia sentido a passagem do tempo. E então Ted também o sentiu, na água escura que pulava, nos barcos que passavam depressa, no vento – movimento e caos por toda parte -, e segurou a mão de Susan e disse: “Sempre. Vai ser assim sempre.””

O leitor é transportado com bilhete de ida e volta através da década de 70, passando por todas as seguintes até o derradeiro ano de 2021, ao som de músicas, sons e cores – é quase possível escutar a trilha sonora do livro – a música aqui, funcionando como instrumento catalizador do tempo, pois tem melhor forma de caracterizar uma época do que através daquilo que cultuamos?

O livro nos deixa aquela sensação de nostalgia, foi escrito para ser degustado e sentido aos poucos, pois não é possível entendê-lo sem antes experimentá-lo. Por isso, a sinopse tão pequena e não esclarecedora. Por isso, a impossibilidade de escrever sobre algum personagem em particular, tamanha a importância de todos eles para a história, pois a essência é a mensagem e o maior protagonista é o tempo. Sabe aqueles filmes onde acontecem várias narrativas paralelas interligando-se pouco a pouco? A Visita Cruel do Tempo tem um tanto disso, que vai tomando forma através das décadas.

É uma viagem através da música, dos arrependimentos, dos sonhos perdidos, realizados ou nunca encontrados. De tudo que imaginamos e de como as coisas podem sair completamente diferente do que ansiávamos. Acima de tudo, é um livro que nos mostra as facetas do tempo – ele é implacável e cruel? Sim! Mas também pode ser inusitadamente confortador. O certo é que virá para todos, está em todo lugar a nossa volta, para o bem ou para o mal, mas é apenas quando sentimos fisicamente suas mudanças que acordamos para o fato de que nunca será possível voltar atrás.

“Alex fechou os olhos e escutou: o portão de ferro de uma loja era abaixado. Os roucos latidos de um cão. Caminhões passavam nas pontes. A noite aveludada em seus ouvidos. E o zumbido, sempre aquele mesmo zumbido, que talvez no final das contas, não fosse um eco, mas sim o barulho do tempo que passa.”

Título Original: A Visit From the Goon Squad
Editora: Intrínseca
Número de Páginas: 336
Gênero: Romance

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21 Responses to [Resenha] A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

  1. Duda 🙂
    Pra te falar a verdade esse livro eu não conhecia :O
    Tem em ebook será? porque estou sem dinheiro ultimamente kkkkk
    Beijos e tenha uma excelente semana

    RIMAS DO PRETO

  2. Duda, adoooorei a resenha!
    Eu já vi esse livro na livraria mas não tinha vontade de comprar. Agora tenho.
    Pelo que você falou, a estória me lembrou um pouco o filme As Horas (que eu adoro) já que ambos contam a estória de vários personagens e em épocas distintas. Talvez eu esteja enganada, mas foi isso que me pareceu à primeira vista.
    Essa leitura deve ser mesmo maravilhosa!

    Beijos, Carol.
    http://www.perdidanaestante.blogspot.com

  3. Lucas Martins disse:

    Duda, que demais, sério! Não imaginava uma narrativa tão bacana assim…
    Aliás, assim como você, o livro era um completo desconhecido… Só ouvi falar por cima, os comentários e tal, e o fato de ter ganho o Pulitzer…
    Eu quase comprei o livro esses dias, mas acabei levando um infantil, hahahha bobo eu? É o livro do mês do desafio que eu estou participando, então…
    Eu estava tentando não ler resenhas do livro, mas a sua está excelente, Duda! Estou com ainda mais vontade de ler (comentário clichê, não? Hahaha)
    Mas, de verdade, saber que você gostou me deixou com ainda mais vontade.
    (Aliás, quando eu vi na livraria fiquei super curioso por causa de uns gráficos – ?- no fim do livro)
    Enfim!
    Parabéns pela resenha, Duda! Arrasou!
    Bjão!

  4. Aione Simões disse:

    Nossa, Duda, eu quero ler esse livro agora depois dessa sua resenha!
    Ele parece ser complexo, genial e maravilhoso!
    Muito bom ver que ele não é confuso e, ao contrário, acaba sendo muito dinâmico!
    Fiquei curiosa pra ver esse seu estudo aprofundado e pra ver qual seria o resultado de sua leitura em ordem cronológica!
    Sua resenha está incrível, querida!
    Beijão!

  5. Anonymous disse:

    Oi Duda, estou de olho nesse livro faz tempo, mas ainda não havia me decidido por ele, mas agora lendo sua resenha e vendo que você adorou, fiquei louca para ler. ainda mais que você se aprofundou na leitura e eu fiquei louca pra discutir tudo com vocÊ, mas acho que isso vai ficar pra depois, pois eu tenho um pilha de livros que não baixa, kkk
    Adorei sua resenha, beijos
    MÔnica Carneiro ´estou fora do google, tá? desculpa

  6. Oi Duda!
    Sempre, desde que vi esse livro na Saraiva, tenho uma vontade enorme de comprá-lo. Primeiro porque como já disse na sua caixinha de correio, a capa é maravilhosa! Segundo por já vi alguns comentários positivos, mas ainda não tinha lido nenhuma resenha.
    Acho que pelo que você citou acima, eu adoraria o livro, apesar de talvez achá-lo um pouco confuso as vezes (foi o que me pareceu), com certeza vou ler!
    Sua resenha está ótima e super completa, e se eu ler mesmo o livro, vou te procurar para comentar.

    Beijos!

  7. Poxa vida Duda, depois da sua resenha impossível não ficar louca para ler esse livro. Confesso que quando fiquei sabendo do lançamento acabei nem dando atenção, não sei porque mais não me interessei, no entanto as características que você ressaltou me deixaram super curiosa, adoro principalmente quando há alternância de personagens. Enfim, resenha incrível 🙂

    Beijos&beijos
    Book is life

  8. Olá, Duda!
    Confesso que à primeira vista nem tinha me interessado pela leitura desse livro, mas agora com a sua análise a respeito, sinto que preciso dar uma chance e conferir de perto a história.
    Parece ser bem profunda e emocionante, quero muito ler!
    Adorei a sua resenha!
    Bjos.

    Mariana Ribeiro
    Confissões Literárias.

  9. Giil Almeida disse:

    Poxa, que resenha legal!
    Eu não conhecia muito sobre o livro,mas, fiquei com muita vontade de ler.
    Estou curiosa agora!
    Parece uma história muito bem elaborada mesmo, e bem interessante.
    Assim que tiver oportunidade irei lê-lo!

    Bjos,
    Verbologia Pink

  10. Angélica Roz disse:

    Oi Duda!
    Tenho visto propaganda desse livro lá no Skoob e ando bem curiosa!!
    E, agora, com a sua resenha… fiquei doida para lê-lo!
    Essa sensação nostálgica é boa demais!! E a trama parece ser interessante. 🙂

    Beijos!

    Feliz Dia do Blogueiro! \o/

  11. Aline Coelho disse:

    Nossa Duda que texto maravilhoso, vc realmente destrinchou esse livro e percebi que vc adorou ele. Parabéns a autora pelo trabalho. Não é muito meu estilo de livro =/ ele é um verdadeiro teste de atenção né!!!

  12. jayane disse:

    Nossa acho que vou gosta desse livro,me lembrou o livro A mulher do viajante do tempo,pois na historias tem umas passagem que volta no tempo quando comecei a ler pensei que ia me perder,mas foi super fácil de ler,acho que entenderei bem esse livro quando eu for ler.

  13. Oi, tudo bom?
    Gosto muito de ler resenhas, mesmo não tendo o livro, tento observar, aprender e vê se gostarei do livro.
    E você falou muito bem dele, adorei.
    Território das garotas
    @territoriodg
    Bjss *-*
    Passa lá no blog? http://tinyurl.com/6omp9rp
    http://territoriodascompradorasdelivro.blogspot.com/

  14. Duda … que reenha fantástica.
    Confesso que não conhecia muito bem o livro, mas com sua resenha já achei interessante a maneira como a autora usa do tempo para construir a narrativa e se antes o livro não chamou tanta a anteção (digo isso por não conhecer, é claro), mudou e muito com a resenha. Gosto quando as histórias são “jogadas” para tudo se interligar com o tempo.
    Parabéns 🙂

    Beijos
    Ricardo – http://www.overshock.blogspot.com

  15. Oi Duda!
    Escrever capítulos em ordem de tempo alternada e conseguir não deixar o leitor confuso é um talento para poucos escritores.
    Já queria muito ler este livro. Fiquei ainda mais curiosa, para conhecer os personagem e a história.
    Quando puder ler, adoraria discutir sobre o livro com você.
    “excepcional”, essa palavra é gritante, e estou me segurando para não comprar o livro da Jennifer agora. :/

    Beijos.

  16. Luana Feres disse:

    Primeira resenha que leio desse livro, Duda, e fico feliz que tenha tido a oportunidade porque seu entusiasmo pela obra só me despertou curiosidade em continuar a ler sobre o que o livro se tratava. Confesso que sim, pareceu confuso para mim. Entretanto, sou daquelas que sempre sabe o que aconteceu no final quando um amigo ainda não entendeu; consigo captar pequenas coisas durante toda a leitura ou assistindo um filme. Enfim, creio que eu não vá ficar tão confusa. Claro que deve demorar alguns capitulos até que nos acostumemos com a narrativa, mas isso sempre acontece quando um livro foge da linha convencional. Vou tentar ler assim que possivel. 😀

    Beijos!

  17. Michelle' disse:

    Oi Duda!
    Amei a sua resenha.
    Foi a primeira que eu li a respeito desse livro e me surpreendi bastante.
    Não sabia muito bem do que se tratava e não imaginei que fosse algo tão complexo e ao mesmo tempo encantador.
    Com certeza esse Pulitzer que ela ganhou foi mais do que merecido, já que não encontramos tantos autores que conseguem mesclar tudo isso num livro só de uma maneira que te faça querer saber mais sobre a história.
    Beijinhos
    Michelle, Minha Bagunça

  18. Máh disse:

    Acabei de escrever minha resenha desse livro. Nela, também disse que quero arriscar uma leitura em ordem cronológica. Será que nossas anotações sobre os anos bateram?

    Beijos!

  19. Durval disse:

    Acabei de ler VCT, fiquei muito impressionado. Um livro magnífico, quanto mais eu lia mais gostava. A Jennifer tem um humor cáustico, sensacional. O capítulo do general é impagável. A apresentação em ppt é magistral, ela usa muito bem a linguagem gráfica. O último capítulo é profundamente filosófico, um fecho magnífico.
    Parabéns pela ótima resenha. Participo de um clube do livro e vamos discutir VCT no final deste mês. Vou recomendar sua resenha à turma.
    Abraços
    Durval

  20. Olá Eduarda,

    Acabei de ler este livro e posso afirmar o quão diferente é sua leitura, mas nem ainda pouco interessante. Confesso que levei algumas páginas para entrar no ritmo do livro, porém depois de engrenado…wow!!! Amei!

    Adorei sua resenha Parabéns!

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