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by • julho 24, 2012 • ResenhasComments (33)2674

[Resenha] Noites Brancas e Outras Histórias, de Dostoiévski

Esta edição da Martin Claret reúne duas importantes histórias do autor, porém, a de maior destaque literário, e uma das principais obras de Dostoiévski, não é a que dá nome ao livro e sim a narração posterior (e também a mais longa) Memórias do Subsolo ou, como é conhecida em algumas outras traduções, Notas do Subsolo.

Há tempos que vinha querendo ler Noites Brancas e, pelo que pude constatar, este pequeno conto é um dos que mais se diferenciam do estilo literário pelo qual o autor é conhecido, aqui suavizado por uma atmosfera mais romântica, bem diferente do existencialismo que o tornou uma das maiores referências mundiais. Talvez algo que tenha influenciado seja o fato de ter sido escrito antes do período de trabalhos forçados aos quais foi submetido em seus anos de prisão, mas já quando encontrava-se envolvido na conspiração revolucionária que quase o levou ao fuzilamento.

O protagonista de Noites Brancas é um sonhador, no sentido mais amplo da palavra e é assim que ele se apresenta, sem nome, nem documento. Ao percorrer ruas sem fim em suas andanças constantes pela antiga São Petersburgo, divaga sobre assuntos variados, quase que em um mundo paralelo, afastado completamente das coisas mundanas, oscilando entre beleza, deslumbramento e melancolismo, tendo suas palavras acentuadas pela atmosfera onírica da cidade, proveniente do fenômeno responsável pelo título do livro, Noites Brancas, onde no verão o sol desaparece às nove da noite para depois ressurgir baixo na linha do horizonte à meia noite, iluminando a madrugada. Solitário, ele levava os seus dias de forma automática, até que em uma noite se depara com a jovem Nastenka, chorosa e tristonha, as margens de um rio, e um elo entre os dois é formado.

“Sou um sonhador, mal conheço a vida real, e um momento como este é tão raro de ser conseguido por mim, que me seria absolutamente impossível não continuar a evocá-lo sempre em meus sonhos.”

Toda a narrativa é repleta de sentimentalismo e a personalidade singular do sonhador vê em  Nastenka um amor a ser despertado, nada convencional e extremamente veloz, que, de tão surreal, evoca ainda mais a atmosfera de sonho. Nos primeiros momentos, me encontrei arrastando a leitura, o quase monólogo a torna um tanto cansativa e não são poucos os parágrafos de uma página inteira com uma enorme ausência de pontos finais, o que pode dificultar até que nos acostumemos. Felizmente, a narrativa toma fôlego e melhora consideravelmente com a entrada da história de Nastenka que, ao contar a sua triste trajetória de amor para o sonhador, desperta ainda mais sua simpatia e permite ao leitor um rápido avanço de páginas e maior interesse em relação ao desfecho da trama. A história é bem curta, mas o encanto do sonhador permanece, assim como um espécie de melancolia, depois de virada a última página.

“… E a gente fica triste por ver que a beleza se esgotou tão depressa e irrevogavelmente, de que com a luz tão falsa e vã tenha brilhado ante nossos olhos… tristeza por não ter havido tempo de tomarmos gosto por ela…”

Não poderia existir contraste maior, porém, em relação ao protagonista de Notas do Subsolo, história subsequente. Este segundo é um funcionário público que vive quase isolado, extremamente pessimista e amargo, um ser desprezível, antagonista duro e atormentando, desprovido de altruísmo ou qualquer consideração pelo próximo.

A primeira parte consiste puramente num monólogo em que ele tenta explicar os seus motivos para agir de tal forma, ao mesmo tempo em que procura encontrar um sentido na vida e nas ações dos homens, ou falta delas, divagando sobre aspectos morais e sociais, em certo ponto se descrevendo até mesmo como um homem mau, passando a  dissertar sobre o ser humano, suas vontades e em como o próprio homem procura prejudicar-se através destas, com os seus desejos muitas vezes contradizendo a razão e, entre outros aspectos, como o quanto a sociedade intelectualizada contribuiu para a proliferação da maldade e acentuou no homem o gosto pela morte e pelo sangue.

“…Então, em que é que a civilização nos adoça? A civilização não faz mais que desenvolver em nós a diversidade das sensações… nada mais. E, graças ao desenvolvimento dessa diversidade, é muito possível que o homem acabe por descobrir uma certa volúpia no sangue. Isso aliás já aconteceu. (…) Antigamente o homem considerava que tinha o direito de derramar sangue, e era com a consciência bem tranquila que destruía o que bem lhe aparecia. Hoje, embora considerando a efusão de sangue uma ação condenável, nem por isso deixamos de matar, e mais frequentemente ainda do que antes. Isso vale mais? Decidi vós mesmos.”

Ao se destrinchar em palavras através de uma análise de si mesmo, ele procura suscitar uma certa identificação, na tentativa de explicar as suas atitudes vis e mesquinhas (que serão contadas a seguir, em forma de pequenas histórias) das quais não consegue de forma alguma desprender-se, ao mesmo tempo em que também não consegue esquivar-se do peso moral das mesmas, causando-lhe um tormento constante.

O relato contado pelo homem do subterrâneo consiste num dos maiores tesouros literários já escritos, considerado precursor de todas as obras existencialistas posteriores, sendo utilizado como referência para diversos ícones literários do século seguinte, possuindo assim uma influência inestimável para a literatura universal. Aliás, o seu alcance foi tamanho que trespassou as barreiras literárias e adentrou no âmbito psicológico, sendo considerado de extrema importância para pesquisas posteriores de nomes como FreudNietzsche, por exemplo. Só por isso já vale a leitura, mas recomendo que se aventure apenas se estiver à procura de algo mais denso, para ser lido vagarosamente e com toda a atenção, ou o propósito será perdido.

Título Original: Bielie Notchi
Editora: Martin Claret
Número de Páginas: 198
Gênero: Clássicos
Cedido em parceria com a Martin Claret

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33 Responses to [Resenha] Noites Brancas e Outras Histórias, de Dostoiévski

  1. Nossa… eu nunca li esse livro direito, eu só dava uma passeada nele pq era um amigo, mas nunca li mesmo. Tinha até esquecido. Agora quero ler decentemente. rsrs

  2. Pabline disse:

    Olá Duda!
    Pois é, tenho muita vontade de ler algo de Dostoiévski, e como vc disse, tenho consciência de que seus livros são mais densos e precisam ser lidos com calma e quando a pessoa está com clima para isso, como esses últimos tempos estou numa vida muito corrida, sempre fico adiando :/
    Mas pretendo ler algo dele logo, já vou anotar esse titulo, me deixou bem curiosa 😀
    Bj!

    -Amigas Entre Livros-

  3. Giil Almeida disse:

    Oi Duda,
    Gosto de tentar ler algo em novo estilo sempre, e essa leitura parece diferente de tudo que já li, vou adicionar as minhas futuras leituras. Mas, como você disse existem leituras que lhe tomam mais tempo e são mais densas, creio que meu estilo literário do momento seja mais leve. Mas, me interessei pela leitura, espero ter a oportunidade de lê-lo!
    Gostei da resenha, me deixou curiosa para conferir as histórias.

    Bjos,
    Verbologia Pink

  4. Aline Coelho disse:

    Duda adoro livros clássicos, eles tem um clima e um sabor especial \o/ parabéns pela ótima resenha, vc escreve muito bem!!!
    Bjão e saudades!!!

  5. cristiane disse:

    Legal. Nunca tinha visto e gostei bastante. Achei bem interessante esse livro.

  6. Mey disse:

    Nunca li nenhum livro do autor, até tenho vontade, mas tenho um lista imensa para ler, e ultimamente ando lendo mais fantasia. Bjksss

  7. Lili disse:

    Eu não li nada dele ainda. Mas tenho muita vontade. Já reservei para ler algo este ano (espero conseguir)!

    liliescreve.blogspot.com

  8. Aione Simões disse:

    Oi Duda!
    Imagino mesmo que seja uma leitura a ser feita quando se deseja algo mais denso. O livro parece ser daqueles muito bons, mas, ao mesmo tempo, bastante lentos e até mesmo cansativos.
    Gostei de ver que ele abrangeu até mesmo a psicologia, fiquei mais interessada em ler!
    Beijão!

  9. WilLDuarte disse:

    Oi Duda!
    Já faz alguém tempo que estou interessado em Noites Brancas e outras histórias, mas como você bem falou ele é um livro denso, que não pode simplesmente ser lido a qualquer momento e é exatamente por isso (e claro, a sempre grande pilhas de livros que tenho para ler) que fazem com que a leitura dele seja sempre adiada. O fato de ainda não ter o livro também contribui bastante! KKKKKK’
    Acho que é isso, beijão Duda!

  10. Adoro São Petersburgo como ambiente para histórias; mas confesso que sou um pouco preconceituosa com livros de contos.
    E admito que vivo em dívida com a literatura russa, que constantemente me recomendam e não sei porque adio tanto alguma leitura.
    Percebi que você se arrastou com a leitura, e sendo sincera, me peguei pensando que este é um livro que eu não leria. Tenho um primo que fala muito nesse autor [minha amada família culta], mas nós dois divergimos muito em gostos.
    Sendo sincera, esta foi uma resenha difícil de ler porque o livro me pareceu pouquíssimo atraente!

    Beijocas!

  11. Angélica Roz disse:

    Oi Duda!

    Eu ainda não conhecia esse livro acredita?
    A sua resenha me deixou curiosa!!
    Fiquei com vontade de lê-lo. 🙂

    Mudando de assunto, eu queria ver contigo uma coisa… Oito blogs vão se reunir para montar uma promoção de Dia dos Pais. Pensei em ti… Também gostarias de participar?
    Cada uma de nós vai dar um livro, com uma temática mais “masculina”… O que achas?

    Beijos!!

  12. Oieee

    Adorei seu blog, é muito lindo. Vc escreve super bem também, parabéns!
    Estarei sempre dando uma passadinha aqui para saber das novidades.

    Beijos

    Lanny
    http://www.leituraeoutrostantos.blogspot.com

  13. Raíssa Lins disse:

    Acho que não vou ler esse livro tão cedo. Parece um livro muito rico, mas que exige bastante do leitor também, né? Não acho que esteja disposta a um livro dessa densidade agora.

  14. Já há um bom tempo venho querendo ler o autor, e nunca soube por onde começar. Não conhecia Noites Brancas, mas achei a resenha bem interessante. Acho que posso começar por esse!

  15. Caroline disse:

    Oi, Duda! Estava bem sumida, pois andei quase sem tempo esses dias. Mas estou de volta e desculpe o sumiço! Voltarei a comentar sempre aqui, adoro o seu blog!

    Beijos
    http://www.carolinecuri.blogspot.com

  16. Uma amiga me emprestou esse livro mas nunca o li direitinho, pois não tinha calma e ficava ansiosa para acaba-lo logo, mas agora estou bem interessada para lê-lo.
    Bjks!

  17. Julia G disse:

    Oi Duda, realmente notei a diferença, pela sinopse que você fez de “Noites Brancas”, entre essa obra e o estilo literário que consagrou o autor.
    Parece ser uma leitura gostosa, mas carregada, principalmente por ter um escritor tão clássico. Nunca li nada do autor, mas tenho curiosidade.

    Beijos

  18. Jaqueline disse:

    Oi Duda!

    Eu já tinha ouvido falar sobre “Noites Brancas e Outras Histórias” mas achei que não estava no momento certo para lê-lo.
    Não sei se já estou no momento certo,pois como você disse é uma leitura mais densa, mas sua resenha me deixou muito curiosa para conferir.

    Beijos.

  19. Oi Dudinha!
    Não sabia – ou ao menos não lembrava – que este livro não contava apenas uma história, apesar de estar apontado no título. Pelo que pude perceber através da resenha, me identificaria bem mais com o personagem de Noites Brancas do que com o do Subsolo justamente por essa personalidade tão mesquinha que o segundo possui.
    Adorei a resenha, como sempre!

    Beijos.

  20. Lucas Martins disse:

    Duda, eu sempre tive curiosidade em relação as obras do Dostoi. Por muito tempo quis ler Crime e Castigo, chegando a possui-lo, mas por medo da escrita russa mais chatinha, dei para trás.
    Eu não sabia muito do livro até você mostra-lo em vídeo, mas agora fiquei bem interessado. Entretanto, acho que o mesmo fator que me afastou de Crime e Castigo faz com que eu dê para trás com este livro.
    Não sei se estou pronto para ESSA leitura densa, agora, entende?
    Beijão!

  21. Uau,nunca li nada do autor.
    Mas realmente gostei da história
    Pretendo ler .

  22. ✿Vanessa✿ disse:

    Oi Duda!
    Pode parecer estranho, mas não conhecia estes livros, e amei esta edição da Martin Claret. Me deu vontade de ler.

    Bjinhs*
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com

  23. Duda, conhecia o autor vagamente e do livro nada sabia – o que pela resenha não julgo ser algo para se orgulhar.
    Primeiramente preciso dizer que imaginva qualquer coisa, menos o que realmente dá o título ddo livro. Provavelmente é até óbvio, mas tinha certeza de que seria outro motivo :s
    Sobre os demais pontos, o livro deve ser bem interessante de se ler, mas concordo com a opinião de muitos aqui no post, como por exemplo de que o livro deve exigir do leitor – ainda que pareça ser bem importante para a literatura em geral.
    Talvez não seja uma literatura para agora, mas no futuro posso seguir sua indicação.

    Parabéns, Duda.
    Beijos

  24. Oi!
    Sério, tenho um enorme vontade de ler este livro. A história parece ser bem profunda e a curiosidade sobre ela só aumentou.
    Parabéns pela resenha!
    Abraço!

    “Palavras ao Vento…”
    http://www.leandro-de-lira.com

  25. Lais Ribeiro disse:

    Nunca li nada de Dostoiévski, mas tenho vontade de ler, o que me impede é que quero ler com o clima propricio o que não faço ideia de quando vai ser. Ótima resenha.

  26. Oi Duda!

    Eu tenho vontade de ler algo do Dostoiévski. Já me interessei em ler Crime Castigo, mas acho que não deve ser uma leitura fácil. Estou me preparando. haha
    Vou procurar mais sobre este livro, ver se encontro em uma livraria aqui na minha cidade e quem sabe eu o compre e comece por ele…

    Beijos,
    Carol.

  27. Olá,achei bem legal sua resenha.Gosto de livros com sentimentalismo:)
    E essa capa está bem fofa!

  28. Thais Okubaro disse:

    Este comentário foi removido pelo autor.

  29. Thais Okubaro disse:

    Ótima resenha! E acredito que se você gostou de Noites Brancas, gostará de Uma criatura dócil (Foi publicado aqui no Brasil pela editora Cosac Naify).
    É uma novela gostosa de se ler, segundo o próprio Dostoiévski é uma narrativa fantástica, que eu garanto que irá te prender do início ao fim.

    Se você além de Dostoiévski gostar de outros literatura russa em geral, tente Anton Tchekhov. Ou se já leu, já sabe do que eu estou falando. Pra mim, ele sim é o maior nome da literatura russa de todos os tempos! (Contando Tolstoi e tudo Hahaha ;P)

  30. Oi flor,
    Infelizmente nao me chamou muita atenção essas historias estou precisando agora de um livro que me deixe sem ar.
    Bjksss
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    http://leiturakriativa.blogspot.com.br

  31. Kazake disse:

    Não sei o que eu acho, o enredo parece maravilhoso, já a capa, achei um pouco brega, mas o que vale é o conteúdo, não? =]

  32. Ana Ferreira disse:

    Duda, eu tinha lido a sua resenha na semana passada e me esqueci completamente de comentar nela, mas agora que estou com a tarde livre pro blog, vim deixar meu comentário.
    Primeiramente, tenho muita vontade de ler algo de Dostoiévski simplesmente pelo fascínio que a complicada literatura russa desperta em mim. Como muitos, minha predileção é por “Crime & Castigo”, pois sinto que trata-se realmente de uma excelente história e gostei bastante da premissa de “Noites Brancas e Outras Histórias”, ainda que as obras existencialistas não sejam as minhas prediletas…
    Sua resenha ficou ótima 🙂
    Beijão!

  33. Ainda não li nada do FIÓDOR DOSTOIEVSKI, conheço apesas algumas frases e adoro. Gostei muito da sua resenha, apesar de você ter escrito que a história é meio densa fiquei bem curiosa em relação ao desenrolar da história.

    ótima resenha, parabéns.

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