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by • agosto 7, 2012 • ResenhasComments (29)2147

[Resenha] Paris é Uma Festa, de Ernest Hemingway

Uma cidade mágica, paraíso dos artistas, onde tudo pode acontecer. É essa a impressão que carregamos ao longo das 236 páginas de Paris é Uma Festa, espécie de autobiografia, escrita por um Hemingway diferente, sentimentalista e nostálgico, características nada próprias do autor em outras obras.

“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante.”

O livro foi escrito nos anos que precederam a sua morte, não tendo ao menos chegado a ser revisado pelo autor. Tal fato, porém, não prejudica nem um pouco esta obra tão ricamente elaborada, tesouro literário para os amantes do gênero. Hemingway passeia pelo seu tempo de juventude e relata como eram os seus dias no tempo em que era pobre porém feliz (nas palavras do próprio autor), época que considerou a melhor de sua vida.

Tal constatação mostra-se completamente compreensível ao leitor, uma vez que, embalados pelas suas palavras, passeamos pelas muitas ruas da cidade da luz em seu auge literário, com seus muitos cafés de rua, visitas ao Sena, e até mesmo passadas ocasionais à lendária livraria de Sylvia Beach, Shakespeare and Company, – ponto de encontro dos principais autores da época – nunca perdendo o clima indiscutivelmente boêmio, regado de bebidas e novas promessas artísticas no ar.

“Nessa rua fria, varrida pelo vento, a Shakespeare and Company era um lugar acolhedor e alegre, com um grande fogão acesso no inverno, mesas e estantes de livros, novidades na vitrina e, nas paredes, fotografias de famosos escritores vivos e mortos. Todas as fotografias pareciam instantâneos, e até mesmo os escritores mortos tinham um ar muito vivo.”

Pouco após o término da Primeira Guerra Mundial, quando muitos tentavam ganhar a vida com as palavras, o círculo de amizades representado no livro é repleto de nomes que viriam a se tornar inesquecíveis nos anos vindouros. Descobrimos nesse retrocesso como era a vida dos autores quando novos e ainda ávidos pela fama, sempre através da perspectiva do próprio Hemingway que teve entre os seus melhores amigos, nomes como Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ezra Pound e James Joyce, por exemplo.

Só consigo descrever este livro como incrível. De que outro modo poderíamos visualizar o dia a dia de nomes tão importantes da literatura mundial, e o melhor, através dos olhos daquele que se encontrava no centro dos acontecimentos, e que tempos mais tarde viria a tornar-se ele próprio, um desses nomes? Obviamente, a obra é isenta de objetividade; nada mais natural, já que percebemos o mundo pelo olhos do autor, e é justamente aí onde reside toda a graça.

“Entretanto, na manhã seguinte, o rio estaria lá à minha espera, assim como os campos e tudo que iria acontecer. Tinha a vida pela frente, para ir fazendo isto dia após dia. Nada mais me importava.”

Não procuramos aqui por um simples relato objetivo de uma Paris na década de vinte. Encontramos uma história com amores, desamores, desavenças e amizades, tendo como personagens, pessoas únicas, artistas que muito despertaram a curiosidade em decorrência do seu legado e fama histórica. O autor não se abstém de falar sobre aqueles que o desagradavam, mas também não economiza elogios para os que admirava, ao mesmo tempo em que analisa atitudes e momentos do seu passado distante, sem conseguir deixar de lado um tom de inegável carinho em suas palavras.

“Demonstrou interesse em ter a minha opinião sobre esse novo livro – tratava-se de O Grande Gatsby – e prometeu que me emprestaria o último e único exemplar que possuía, tão logo fosse devolvido por uma pessoa a quem emprestara. Ouvindo-o falar assim tão displicentemente de O Grande Gatsby, ninguém pensaria que se tratasse de um romance tão bom, a não ser que estivesse familiarizado com essa maneira que os escritores de verdade têm de se referir com certa vergonha aos seus melhores trabalhos.”

É refletindo sobre esse capítulo de sua vida, agora com olhos mais velhos e nostálgicos que Ernest Hemingway, procura resgatar partes de uma época que muito lhe trouxe felicidade, quando ainda havia toda uma vida pela frente, e o futuro incerto e misterioso lhe cercava cheio de promessas.

Um mergulho ao centro da vida cotidiana de um grupo que seria para sempre imortalizado pela literatura mundial, Paris é uma Festa é indispensável para os fãs da famosa e famigerada “geração perdida“, atingindo o alcance que apenas um olhar de dentro para fora poderia proporcionar aos seus leitores.

“- É isso mesmo o que vocês são. É isso o que vocês são – disse Miss Stein. – Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.”

Caso tenha assistido ao filme Meia Noite em Paris, dirigido pelo cineasta Woody Allen e vencedor do Oscar de melhor roteiro original, já pode ter uma certa ideia do que irá encontrar por essas páginas. Caso não, deixo aqui a minha indicação, tanto do livro, quanto do filme, ambos grandes representantes do seu estilo, seja ele cinematográfico ou literário. Para os que não conhecem muito sobre o assunto, recomendo primeiro uma conferida no filme (que passeia pela mesma época), e uma vez aprovado, é certo que a leitura do livro será igualmente apreciada.

“Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas umas das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudança se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena, e retribui tudo aquilo que você lhe dê.”

Para leve degustação, deixo vocês ao som e imagem dos primeiros três minutos do filme Meia Noite em Paris, onde podemos ver uma maravilhosa apresentação da cidade. Vale super a pena assistir, gente! Me digam se não dá vontade de largar tudo e pegar o primeiro avião?

Título Original: A Moveable Feast
Editora: Bertrand Brasil
Número de Páginas: 236
Gênero: Romance autobiográfico

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29 Responses to [Resenha] Paris é Uma Festa, de Ernest Hemingway

  1. Lucas Martins disse:

    Poxa, Duda, quando via as críticas a O Velho e o Mar era sempre em relação a forma de escrita do Hemingway, mais “complicada” e lenta, mas ainda sim uma leitura muito boa, com boas reflexões.
    Eu quero ler O Velho e o Mar agora, tenho imenso interesse na obra do Hemingway, o cara era um gênio! Eu vi Paris é uma Festa na livraria neste fim de semana e fiquei bastante tentado a comprar, mas estava bastante caro, então desisti. Porém, a vontade de conhecer a obra é imensa (ainda mais sabendo dessa relação com Meia Noite em Paris e com o fato de ter base na vida do Hemingway)
    Enfim, beijão, Duda! 😀

  2. Djéssica disse:

    Não assisti o filme que você citou. Esse parece ser um ótimo livro! Você me deixou com uma enorme vontade de ler o livro rsrsrs
    Não tinha ouvido falar desse livro ainda, mas o nome do autor não me é estranho…
    Que cenarios lindos que tem no video! *-* Da mesmo vontade de ir la T-T Espero poder ir um dia!

  3. Laura K. disse:

    Paris é realmente uma cidade encantadora. Já fui uma vez e quero voltar quantas vezes eu tiver oportunidade.

  4. Jaqueline disse:

    Oi Duda!

    Eu assisti o filme “Meia Noite em Paris”, agora estou super curiosa para ler o livro pois adorei o filme ^^
    Quando assisti o filme confesso que também fiquei morrendo de vontade de largar tudo e ir até lá*-*

    Beijos.

  5. cristiane disse:

    Ai que lindinho!!! Adorei *-*
    Tenho uma amiga que é mega louca com Paris, aposto que esse livro ela iria amar. E esse filme? Nem se fala! Lindo!

  6. Oi Duda!
    Infelizmente não assisti ao filme Meia Noite em Paris mas tenho muita vontade. Já o livro me pareceu magnífico, e tive a sensação de que ele nos transporta a Paris de uma forma natural, como se vivemos ao lado do autor. Outra coisa interessante que eu achei é o fato do autor conhecer esses nomes importante da literatura mundial e ter realmente convivido com eles.
    Confesso que achava que o livro era um tanto cansativo e agora você mudou completamente minha visão. Parabéns pela resenha!

    Beijos.

  7. Alinne disse:

    Oi Duda!
    Ainda não assisti esse filme que você citou porém sempre tive vontade e quanto ao livro parece ser bem interessante! Gostei dos pontos que você ressaltou e fiquei super curiosa para lê-lo.
    Parabéns pela resenha.
    Beijão.

  8. Aione Simões disse:

    Oi Duda!
    O livro não me chamou tanto a atenção, apesar de Paris ser a minha viagem dos sonhos.
    Gostei dos seus comentários e do fato do livro ser todo pela visão do autor, mas acho que faltou algo na essência do livro para acender minha curiosidade.
    Sua resenha está ótima, como sempre!
    Beijão, querida!

  9. Oi Eduarda

    Estava convencida até o filme do Woody Allen, tenho birra com ele desde a infância rsss eu sei, não faz muito sentido. Ignorando ele, o enredo parece maravilhoso com todos esses “participantes”.

    Bjus

  10. Julia G disse:

    Oi Duda, nunca tinha visto esse livro, e o filme ainda não assisti, não sei por quê. Li uma indicação ainda essa semana e fiquei louca de curiosidade. Agora, com essa sua resenha, aconteceu a mesma coisa com o livro. Acho que a Paris que conhecemos hoje, ainda tão mágica e apaixonante, não chega perto do brilho que tinha àquela época, não?

    Beijinhos

  11. Gladys Sena disse:

    Amei o filme, assisti com uma amiga e ela tmbm amouuu, rsrs.
    Com certeza vou ler o livro.
    Bjoo.

    Nome de seguidora: Gladys Freitas.

  12. Bom, não vou dizer que cai de amores pelo livro e tal… até porque eu prefiro os romance onde a mocinha acaba perdidamente apaixonada pelo carinha misterioso ou então aqueles livros que me dão um tapa na cara como A Cidade do Sol. 🙂
    Parabéns a sua resenha foi fantástica!
    Fiquei um pouco triste pelo altor não viver para poder revisar o livro… 🙁

  13. Gustavo disse:

    apesar da capa ser um pouco palida , o livro parece mt bom ,afinal paris é maraaa kkk

  14. jayane disse:

    Já assistir o filme Meia Noite em Paris e realmente parece ser uma cidade encantadora espero um dia ir visita-la serie um sonho.

  15. Jessica Moura disse:

    Não parece ser o meu tipo de livro. Mais adoro livros que se passam em Paris, talvez eu dê uma chance para ele.

  16. Nunca tinha visto esse livro, mas se visse essa capa em algum lugar com certeza ia ter minha atenção desviada para ela. Este livro além de lindo parece ser maravilhoso pelo o que você conta na resenha. Adorei conhecer um pouco sobre um livro que eu não conhecia mas passei a gostar.

  17. Luana disse:

    A sua resenha me deixou encantada, mas não sei se esse é um daqueles livros que me chama a atenção, e que vai me prender ao extremo, não faz o meu gênero, mas eu fiquei curiosa para saber um pouco mais de como era Paris na época em questão.

    beijos
    Luana – Lendo ao Luar

  18. Planet Pink disse:

    Ei Duda, maravilhosa resenha como sempre!
    Nunca li nenhuma obra do autor, mas este livro parece uma bela viagem sobre sua vida e de alguns outros, deve ser muito interessante.

    Beijos!!

  19. Caroline disse:

    Amei demais essa resenha, Duda! Me passou verdade e satisfação que me deu uma vontade e enorme de ler o livro e assistir o filme também. Parabéns!

    Beijos
    http://www.carolinecuri.blogspot.com

  20. Oi Duda!

    Adorei sua resenha!!!!
    Nossa, o livro parece ser realmente incrível!
    Amei os quotes que você escolheu…!

    Acho que de tanto os livros tratarem Paris como um lugar mágico e tals, quero muito ir para lá!

    Nossa, agora fiquei com vontade de ver o filme também!!

    Beijosss

    Bia | http://www.livroseatitudes.com.br

  21. Lanny disse:

    Gostei da resenha…mas acho que vou demorar um pouco para ler…

    Beijos

    Lanny
    http://www.leituraeoutrostantos.blogspot.com

  22. WilLDuarte disse:

    Oi Duda!
    Já assisti Meia-noite em Paris e AMEI o filme. O modo como Paris é mostrada nele faz qualquer um se apaixonar pela cidade. Sem falar em como é maravilhoso ver todos aqueles artistas famosos em tela.
    Admito que tinha uma ideia totalmente diferente de Paris é uma Festa antes de ler sua resenha. E se antes já possuía certo interesse pelo livro agora ele aumentou ainda mais!
    Ameia a resenha, ficou super linda. Beijão!

  23. NATY disse:

    Oi Duda!

    Apesar de amar Paris (tem como não amar?) não me interessei muito por esse livro. de qualquer forma adorei a sua resenha e os pontos que destacou.

    Beijo;*
    Naty.

  24. Oi Duda,
    Acredita que nunca li Hemingway?
    Vergonhoso, eu sei. Mas pretendo corrigir esta falha assim que possível.
    E tendo como cenário uma cidade que gostaria mto de conhecer, o livro já me chamou a atenção.
    Dica do filme Meia Noite em Paris tbm foi anotada.
    Abraço,
    Alexandre
    http://www.alemdacontracapa.blogspot.com

  25. Angélica Roz disse:

    Oi Duda!

    Não é novidade para você que desejo esse livro né?
    A sua resenha me deixou ainda mais surtada por ele!!

    No decorrer da resenha, pensei “nossa, isso me lembra muito o filme Meia-Noite em Paris”. E, então, me deparo com esse seu comentário final! 😀
    Adorei o filme! Até o meu marido que não é muito desse estilo, gostou também.

    Acho que vou adorar o livro!!

    Vou esperar diminuir a fila por aqui para comprá-lo. 🙂

    Beijos!

  26. Duda, não dá pra negar que Paris é uma cidade encantadora e que possui muitas coisas bacanas – ainda que, se fosse para escolher uma viagem, seria para Roma. Acho que esse lado literário – que confesso, não era o que eu esperava do livro – faz toda a diferença. Pena que não li esses grandes clássicos citados (como da Geração Perdida) e me pergunto até que ponto isso é ruim. Ainda vou fazer isso, e também assistir ao filme.

    Beijos

  27. Jeni Viana disse:

    Oi, Duda! Por mais que sua resenha esteja super bem elaborada e o livro pareça ser realmente bom, não me chamou muito a atenção. Talvez porque… Sei lá o porque. Queria ir para Paris um dia (só se for por um milagre, se nem para a Bienal em SP pude ir), acho a cidade super linda e cheia de histórias para contar! (eu sei que cidade não fala, mas acho que deu para entender o que eu quis dizer, hehe).

  28. Há muito tempo tenho O velho e o mar na minha lista de desejados, mas sabia nada sobre o autor, muito menos que ele tinha um livro intitulado “Paris é uma festa”.
    Embora eu tenha lido poucos livros ambientado em Paris, adoro o cenário e o momento histórico deste também é maravilhoso [estes livros sempre nos fazem viajar nas dimensões espaço/tempo].

    Você escolheu trechos ótimos para representar o livro.

    Amo histórias com tons biográficos e, melhor ainda, quando são autobiográficos.

    Mas este livro me deixou num misto de curiosidade e desinteresse.

    Beijocas!

  29. Eu nao conhecia este livro !!!

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