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by • julho 24, 2013 • FilmesComments (5)816

Hitchcock e a criação de um clássico

Uma das coisas que mais gostei no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose foi a sensação de me sentir próxima dos membros da equipe e, consequentemente, parte dos bastidores. Seja o figurinista, compositor, diretor de arte ou maquiador, o papel de cada um é exaltado e explicado detalhadamente, assim como a importância que tiveram no todo, orquestrados por um excêntrico, porém brilhante, diretor.

Essa foi uma das maiores faltas que senti no filme. A película é mais focada nos dramas de Hitchcock, suas dúvidas, anseios e possíveis tormentos pessoais. Isso é importante? Sim, sem dúvida. Mas o brilho dos bastidores foi deixado de lado. Os papéis foram relegados a pequenas aparições passageiras que, de tão rápidas, mal a percebemos. Não há dúvida que o filme foi desenvolvido com um propósito diferente do que Stephen Rebello tinha em mente ao montar o que mais se aproximaria de um documentário em suas páginas, preenchidas com depoimentos fascinantes, segredos e fofocas por trás das câmeras.

Hitchcock (5)

Protagonizado pelo talentosíssimo Anthony Hopkins, o ator se mostra confortável no papel. Escondido por uma maquiagem primorosa, é fácil esquecê-lo detrás da prótese. Já o roteiro é um problema à parte. Ao deixar de lado pormenores dos bastidores, o enredo foca no relacionamento do diretor com a sua esposa Alma puxando para um lado mais romantizado e, consequentemente, superficial. Problemático, afetado, detalhista e arrogante, Hitchcock era famoso pelas suas peculiaridades, manias, autoritarismo, perseverança e obstinação. Ele usava do seu poder para conseguir o que queria, quando queria.

Suas contradições e conflitos poderiam render algo muito mais profundo do que foi mostrado. Em seu lugar, construíram um retrato mais atenuado e favorável à imagem do diretor, demostrando preocupação em não retratar algo que pudesse macular de alguma forma sua figura, como é mostrado no filme para televisão A Garota, que retrata o seu relacionamento turbulento, opressivo e antiprofissional direcionado a Tippi Hedren, protagonista de Os Pássaros e Marnie (interpretada no filme pela Sienna Miller).

Hitchcock (1)

O assédio às suas protagonistas era assunto de conhecimento geral. Em Hitchcock ele é mostrado de uma forma mais branda e menos repulsiva. A breve explicação do seu conflito com a Vera Miles (Jessica Biel), por exemplo, é tão atenuada e fugaz que em certo ponto pareceu-me que a falta de profissionalismo veio da atriz e não o contrário. Com as informações adicionais do livro, o quadro é totalmente diferente; não vou entrar em detalhes, mas o diretor chegou ao ponto de colocar roupas menos atrativas apenas para diminui-la no set e deixá-la mais feia no filme, sem falar nos atritos já sofridos pela Miles anteriormente.

Posso até entender a intenção dos roteiristas em diminuírem os defeitos do diretor, mas as escolhas de direcionamento acabaram afetando igualmente as qualidades. Não tenho dúvidas de que Alma (Hellen Miren) tenha exercido um papel significativo no trabalho do marido, mas, enquanto no livro ela mal é mencionada (e percebemos todo o trabalho árduo e estético executado no estúdio pelo diretor), no filme ela toma uma parte esmagadora das decisões e é responsável por direcionar o marido em quase tudo, como um cachorrinho perdido. É, inclusive, mostrada uma cena em que ela toma as rédeas da direção quando ele fica doente, deixando de lado o fato que o próprio Hitchcock relatou posteriormente não ter gostado do resultado, chegando a regravá-lo. Enquanto isso, a contribuição de pessoas importantíssimas que tanto adicionaram ao filme, como é o caso do consultor visual e designer gráfico Saul Bass, nem sequer é mencionada.

HITCHCOCK

O filme acerta sobretudo nas atuações. Hellen Mirren está excelente como Alma (indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel), já Scarlett Johansson se mostra carismática como Janet Leigh, mas sua aparição é tão breve e coadjuvante que mal dá para tirar algo de mais significativo do papel. O mesmo pode ser dito em relação a James D’Arcy, fisicamente similar à Anthony Perkins, ao menos de longe, mas tão breve em cena que mal o percebemos.

Acredito que um outro direcionamento poderia ter feito a diferença. Talvez por já ter experimentado a leitura do livro (e quem viu a resenha sabe o quanto adorei) e esperar algo diferente. As minhas cenas favoritas foram as que permaneceram fiéis à pesquisa do Rebello: a representação da estratégia de marketing massiva da chegada de Psicose aos cinemas, a obstinação e perseverança do diretor em publicar o filme quando todos eram contra o lançamento, ambos momentos importantes e bem retratados. Porém, senti falta das curiosidades e informações adicionais que tanto curti durante a leitura, dos personagens e artistas da equipe, deixados de lado para dar lugar a cenas desnecessárias como um possível affair de Alma com outro homem numa clara tentativa de romantizar a película, desnecessária no meu ponto de vista.

 

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5 Responses to Hitchcock e a criação de um clássico

  1. Rayane disse:

    Nunca assisti ao filme original, sou muito medrosa…tinha vontade de assistir a esse filme pois gosto de saber histórias dos bastidores mas ao ler sua resenha acho que vou ficar com o livro mesmo, parece mais interessante…

  2. Lindsay Leão disse:

    Oi Duda,
    Muito legal esse post sobre o mestre do suspense. Hitchoock é um gênio e parece que tudo o que ele toca vira sucesso. Claro que as comparações entre filmes e livros são sempre polêmicas e tem suas diferenças, o que não tira o brilho de cada produção.
    É realmente uma pena que nesse caso especificamente, o filme não seja tão bom quanto o livro, o que não acho de todo
    trágico, uma vez que é difícil retratar todos os detalhes de um livro numa película de algumas horas.
    Enfim, amei o post de qualquer forma!
    Beijos

  3. Mariana FS disse:

    Oi Duda!
    Concordo com você.
    Achei o livro fascinante e tive essa mesma sensação, de conhecer aquelas pessoas e de acompanhá-las enquanto realizavam aquela obra-prima.
    Eu amo o Anthony Hopkins e adorei ver ele no papel de Hitchcock, mas era uma interpretação digna de um roteiro melhor, sem dúvida.
    Como assisti o filme logo depois de terminar o livro, as diferenças ficaram muito evidentes para mim. Além de um foco excessivo no relacionamento de Hitchcock com Alma (que, como você disse, quase não é citado no livro) e de ter amenizado muitos dos conflitos, acho que algumas pessoas se perderam. Janet Leigh, por exemplo. Eu não consegui enxergar no filme a atriz que foi retratada no livro.
    Eu, particularmente, não consigo entender essa necessidade de amenizar os defeitos do diretor por que, a meu ver, seja lá quais forem esses defeitos, não diminui em nada a genialidade dele. Se foi sendo assim que ele construiu sua obra, por que isso não pode conhecido pelo público?
    Achei que faltou um pouco de contextualização também. Como o fracasso recente de “Um Corpo que Cai” o afetou, por exemplo.
    PS.: O affair de Alma era tão desnecessário que eu nem lembrava desse acréscimo do filme até não ler sua resenha.
    PS 2.: Virei tão fã do Saul Bass depois de ler o livro, que fui pesquisar outros trabalhos dele e encontrei uma seleção de suas melhores aberturas (inclusive de “Um Corpo que Cai” que é o meu favorito do Hitchcock). O cara era genial.
    Beijos

  4. Nilsen disse:

    Sou herege e só assisti ao remake de Psicose. Sabe, aquele que tem o Vince Vaugh? Achei o remake péssimo, então imagino que o feito pelo próprio Hitchcock seja infinitamente melhor!

    O filme do Hitchcock, porém, é MUITO bom. O Anthony Hopkins tá irreconhecível HAHA Achei tudo meio dramático e romântico demais também, mas não contei isso como ponto negativo nem nada assim. É Hollywood, né? 😛

    Adoro o seu jeito de escrever!
    Beijos.

    • Eduarda Menezes disse:

      Oi Nilsen,
      Obrigada! 😀
      E adorei ler todos os seus comentários agora há pouco rs Seja bem vinda!
      Eu assisti o remake, mas não chega nem perto, sério. Ficou meio tosco, o resultado não ficou bom. Assisti uma vez pra nunca mais. Já o antigo eu nunca me canso de ver.
      Quanto a Hitchcock, se eu não tivesse lido o livro acho que teria gostado mais do filme, pois não teria percebido as milhares de faltas e diferenças, mas não é que seja ruim. Apenas não foi o que eu estava esperando, sabe? A abordagem poderia ter sido melhor.
      Beijos!

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