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by • agosto 23, 2013 • ResenhasComments (6)1337

[Resenha] Licor de Dente-de-Leão, de Ray Bradbury

Licor de Dente-de-LeãoCompreender o que Licor de Dente-de-Leão simboliza certamente dá um gostinho a mais à leitura. Eu diria até mesmo que faz toda a diferença. Ray Bradbury (Fahrenheit 451) o escreveu já adulto, e o fez como uma celebração à época de criança quando brincava nos campos verdejantes da sua cidade natal, rodeado de amigos em um verão ensolarado onde cada dia prometia uma nova aventura.

O livro inteiro tem um tom predominantemente nostálgico. Ao nos contar sobre o verão do pequeno Douglas, de 12 anos, ele revisita lugares de sua juventude, revive amigos do passado à procura de uma despedida mais digna que nunca aconteceu, relembra brincadeiras, tradições e, principalmente, passeia pelos recônditos de uma cidade glorificada em suas palavras, o tipo de paraíso e beleza que só é possível enxergar com os olhos da infância.

Green Town, nome fictício dado para a verídica Waukegan, no Illinois, ganha vida nas mãos do Bradbury e sobe ao patamar de personagem ativa na história. O verde das árvores, o calor convidativo do rio, a ravina assustadora, cada detalhe que talvez não possua a mesma magia aos olhos de um adulto pode parecer extremamente exótico e especial quando vistos por uma criança. E o carinho e afeição guardados pelo autor transborda em cada página.

“Aqui está minha celebração, então, da morte e da vida, da sombra e da luz, do idoso e do jovem, do inteligente e do burro combinados, da súbita alegria e do completo terror escritos por um menino que um dia se pendurou de cabeça para baixo em árvores, vestido com sua fantasia de morcego e carregando presas de bala na boca, o menino que finalmente caiu das árvores quando tinha 12 anos, descobriu uma máquina de escrever de brinquedo e escreveu seu primeiro “romance”.” 

Creio que o sentimento e significado do livro é o que o torna especial. Embora não possua grandes acontecimentos, ele é contado com o coração. O coração de um menino trancafiado dentro de um homem pelo poder inexorável do tempo. A personalidade do Douglas e do irmão mais novo, Tom, é uma amostra disso. O autor mescla a inocência, otimismo e curiosidade de uma criança, com reflexões filosóficas mais próprias de um adulto. Pode parecer incongruente, mas não quando vemos o Douglas por quem ele realmente é.

Os personagens levemente excêntricos são um espetáculo à parte. Conheceremos o homem que tanto se empenhou em construir uma máquina da felicidade que acabou esquecendo que ela sempre esteve ao seu alcance; a senhora que nunca foi criança; a máquina do tempo do coronel Freeleigh; e até um serial killer conhecido como Solitário que aterrorizava as noites na ravina à caça de uma nova vítima.

Exaltando um dos sentimentos mais poderosos e enternecedores, a saudade é transformada em poesia, cores e lembranças sensoriais, reanimadas pelo poder das palavras. Seja através das colheitas de Dente-de-Leão ao lado do avô, quando armazenava em forma de licor um pedaço líquido do verão para a posterioridade, ou apenas no amor e cumplicidade de irmãos conspiradores, o livro é um convite às lembranças tanto do autor quanto aquelas guardadas dentro de todo leitor.

Algumas leituras necessitam da hora certa para serem apreciadas em sua totalidade, creio que esta seja uma delas. Todos nós, invariavelmente, sentiremos saudade de algo que nunca retornará, mas que ficará para sempre guardado dentro de nossas memórias. Licor de Dente-de-Leão é um livro aberto para redescobri-las.

Título original: Dandelion Wine
Editora: Bertrand Brasil
Número de páginas: 266
Gênero: Romance semiautobiográfico
Cedido em parceria com a Bertrand Brasil

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6 Responses to [Resenha] Licor de Dente-de-Leão, de Ray Bradbury

  1. Tiago Vieira disse:

    Oi Duda!

    É muito bom voltar ao passado, à épocas de nossa infância e reviver aventuras que nunca voltarão. As vezes me pego pensando nos tempos em que minha maior preocupação era decidir o que brincar naquele dia.

    Licor de Dente de Leão me parece um ótimo livro, pois justamente nos remete a essa fase tão especial de nossas vidas. Gostei do quote que você selecionou, onde o autor conta do menino que descobriu uma máquina de escrever e assim fez seu primeiro romance.
    Muitas pessoas podem se identificar com o livro.

    Agra vou pesquisar o preço, e colocar na fila de livros desejados.
    Ótima resenha! Você conseguiu passar a mensagem de forma clara, e me convenceu a ler o livro.

    Até a próxima!

  2. Olá Duda! Devo dizer que, em geral, tenho mais lembranças meio que negativas de boa parte da minha infância, mas sempre há alguma coisa ao qual nos agarramos de nossa infância e sempre queremos retornar para àqueles tempos. E que livro gostoso! Senti a nostalgia que rodeia o livro apenas em ler a sua resenha, e gostei bastante, de verdade. Fora que a capa é lindíssima também. Adorei a resenha Duda, já adicionei aos meus desejados, e espero lê-lo em breve pois creio que estou em um momento certo para isso 🙂

  3. Que lindo, Duda!! Amei a resenha, não sabia que esse livro tratava disso, mas depois que li uma frase do Bradbury fiquei bem curiosa para conferir sua obra. Adoro livros assim, poéticos e que falam de nostalgia, principalmente focados na visão de uma criança, porque as crianças descrevem coisas sublimes como os adultos não podem mais, desde que cresceram. Já está na minha lista de desejados! Beijão!

  4. Oi Duda,
    Acho que este é o tipo de livro que te deixa nostálgico e te faz pensar sobre a infância, certo?
    Embora tenha achado interessante este tom poético e saudosista, fiquei com um um pé atras com a ausência de grandes acontecimentos.
    Abraço,
    Alê – Além da Contracapa

  5. Oi Duda,
    Desde que vi a Bertrand lançando esse livro, fiquei com vontade de lê-lo, simplesmente por ser do Ray Bradbury, que é um mestre da ficção-científica, embora este não seja deste gênero.
    Eu não tinha lido nenhuma resenha dele até agora, e fiquei surpreso ao saber que trata de uma narrativa semiautobiográfica. Eu gosto desses livros com ares nostálgicos, o último que eu li que me inundou de nostalgia foi O Oceano no Fim do Caminho, do Neil Gaiman.
    Beijos
    Cooltural

  6. Não conheço nenhuma obra do autor, porém a palavra “nostalgia” tem um poder especial nesse caso… Acredito que essa palavra já causa essa necessidade de estar no momento certo para a leitura. Apesar disso, não existe nada melhor do que relembrar e reviver o passado, mesmo que seja apenas com as palavras de um livro como esse.
    Acho que essa história é bem particular, mas nem por isso deixa de ter situações que fazem o leitor se identificar. Afinal, todas as crianças, independente do cenário em que vivem suas aventuras, estão em um mesmo estado de magia; em um mesmo sonho.

    Beijos, Duda!

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