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by • novembro 7, 2013 • ResenhasComments (6)1312

[Resenha] O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

O Último Voo do Flamingo

“Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado”.

Se tem algo que me cativou no livro A Confissão da Leoa, primeiro do Mia Couto que li, foi a sua escrita. A prosa poética e rica possui uma beleza única e difere de qualquer leitura que já fiz. Cada autor tem seu estilo narrativo e o do Couto possui uma estética peculiar, lindamente construída e própria do autor, repleta de identidade.

Em O Último Voo do Flamingo, quarto livro do autor, publicado em 2000, soldados das Nações Unidas começam a explodir misteriosamente na cidadezinha fictícia de Tizangara. Um italiano é chamado para investigar o caso, auxiliado por um tradutor local que entra como narrador da história.

“Aqueles caminhos tinham serviços que não eram os mesmos das ruas urbanas: pareciam feitos apenas para passarem sonhos e poentes. Aquelas estreitas ruinhas aliviavam a tristeza da terra dando caminho ao sol, em direção aos secretos recantos de nossa alma”.

Apesar de ter lido apenas dois livros do autor, é muito clara a crítica política e sociocultural presente em suas tramas. Aliás, é algo que se deve ter em mente para melhor compreensão desta história. O livro inteiro é repleto de metáforas, incluindo o próprio título da obra relacionado a uma fábula muito bonita de recomeço e esperança.

Dito isto, vale salientar que um leitor mais descompromissado e alheio ao assunto pode facilmente deixar passar a mensagem pretendida pelo autor, e deixo claro que não menciono como uma crítica a tal leitor, pelo contrário, por vezes, admito, a grande quantidade de metáforas poéticas, misturadas ao toque feiticeiro da trama, me confundiram um pouco até que uma rápida explicação do autor ao final me colocou a par de suas intenções e iluminou o meu lapso.

“Não será que deveríamos cuidar melhor da vida das massas? Porque a verdade é que o caracol nunca deita fora a sua concha. O povo é a concha que nos abriga. Mas pode, repentemente, tornar-se no fogo que nos vai queimar”.

Os personagens carregam a história de sua terra, contadas em meio a invasão externa que tenta oprimir suas raízes. Originalmente lançado quando Moçambique, país natal do autor, comemorava 25 anos de independência de Portugal, o enrendo de O Último Voo do Flamingo é uma homenagem ao povo de sua terra e, por mais que tenha gostado consideravelmente mais de A Confissão da Leoa, admiro o Mia Couto pelo seu talento e por utilizar a literatura para tal fim.

“Esse compromisso para com a minha terra e o meu tempo guiou não apenas este livro como os romances anteriores. Em todos eles me confrontei com os mesmos demónios e entendi inventar o mesmo território de afeto, onde seja possível refazer crenças e reparar o rasgão do luto em nossas vidas”. – Mia Couto

Título original: O Último Voo do Flamingo
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 232
Gênero: Romance
[rating: 3.5/5]
Cedido em parceria com a Companhia das Letras

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6 Responses to [Resenha] O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto

  1. Oi Duda,
    Adorei a resenha, tenho muita curiosidade de ler alguma coisa do Mia Couto. Eu o conheci em 2010, numa visita que ele fez à feira de livros do meu estado, mas até agora nunca li nada, só vejo falar muito bem. Mas indico também outro autor, só que angolano, o Ondjaki. Muito bom também, e que possui essa crítica social em suas obras.
    Lembro que li um livro de viagem sobre o Moçambique e fiquei encantado com a riqueza da cultura deles.
    Beijos

  2. Tay disse:

    Mia Couto é um maravilhoso! Fico curiosa pra ler qualquer que seja o livro dele. Eu li “A confissão da leoa” e “O fio das missangas”, e são muito legais!
    Vou comprar mais livros dele assim que possível!
    Beijo.

  3. Oi Duda!
    Estou lendo Vozes Anoitecidas, e que narrativa fantástica! Adorando cada vez mais. bom, não posso dizer mais nada porque fiquei sem palavras e boquiaberta com sua resenha! Obrigada por me fazer querer mergulhar de verdade na poesia dele. Eu estava meio parada, mas vou retomar AGORA! Beijão!

  4. Duas coisas chamaram a atenção em sua resenha: os quotes e as características do português usado em Moçambique. Como você comentou uma vez que os livros não sofrem adaptações, acho muito bacana manter a escrita do próprio autor, já que tais “adaptações” mudariam o estilo.
    Bom, acho desnecessário repetir o quanto quero conhecer a obra do Mia Couto. Sempre que vejo alguma notícia em relação a ele me lembro dos seus elogios e isso, claro, me deixa muito ansioso por essa leitura. Aliás, até em conversas literárias cito ele devido a você kkkk
    Acho que a história de “A Confissão da Leoa” pode ser mais interessante, mas a premissa de ambos são importantes e isso já basta.

    Beijos, Duda!

  5. Nadia Viana disse:

    Li somente um livro do autor, mas foi o suficiente para me apaixonar. Quero tudo dele! Certamente lerei O Vôo do Flamingo. 🙂 Obrigada pela dica.
    O livro que eu li foi Antes de Nascer o Mundo. Maravilhoso!

    Beijos e boas leituras. :**

  6. Sandra disse:

    Oi Duda!
    Parabéns pela resenha, ficou ótima! Apesar do livro não ser algo que eu gostaria de ler no momento, vou marcar para não esquecer porque parece ser muito bom!

    Beijão!

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