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by • fevereiro 6, 2014 • DicasComments (2)1420

Rose of Fire: Um resumo sobre a origem do Cemitério dos Livros Esquecidos

Rose of fireNão é de hoje que declaro abertamente meu amor pelo Zafón ♥ Acho que todo fã do autor sempre teve curiosidade sobre como surgiu o maravilhoso Cemitério dos Livros Esquecidos, biblioteca labiríntica sonho de qualquer leitor. E Zafón, sabendo de nossa curiosidade, nos contou sobre a sua origem na short story (pequena história) Rose of Fire, disponível gratuitamente em formato digital.

O conto é bem curto e foi lançado originalmente antes do lançamento de O Prisioneiro do Céu, ainda em 2012. Pensando em torná-lo mais acessível, já que o e-book nunca foi lançado no Brasil e está disponível apenas em inglês (e provavelmente em espanhol, não cheguei a procurar) perguntei no Twitter se vocês teriam interesse em uma tradução do resumo da história e esta postagem é um resultado disso.

Não vou me alongar muito já que o texto é meio grandinho por si só. Lembrando que isto NÃO é uma resenha, e sim um resumo da tradução, ou seja, ocultei várias palavras e tive como objetivo apenas apresentar um panorama geral do que aconteceu. Tentei colocar o máximo de informações possível e tudo de relevante está abaixo, mas quero deixar claro que a estética do autor foi totalmente perdida, já que não me preocupei em traduzir literalmente, palavra por palavra.

Rose of Fire, um resumo

Quando o dia 23 de abril chegou, os prisioneiros do bloco se viraram para David Martín, deitado nas sombras de sua cela de olhos fechados, e imploraram para que lhes contasse uma história para aliviar o tédio. “Eu lhes contarei uma história”, ele disse. “Uma história sobre livros, dragões e rosas, como pede a data*, mas, acima de tudo, uma história sobre sombras e cinzas, como pede a época.

*23 de abril, Dia Internacional do Livro, é celebrado na Catalonia com presentes de rosas e livros.

1.

Os relatos contam que quando o criador de labirintos chegou de barco à Barcelona, vindo do Oeste, já carregava consigo uma maldição que mancharia o céu da cidade com fogo e sangue. Era o ano de 1454 e uma praga havia dizimado a população durante o inverno. Com o tempo, as mortes diminuíram e as pessoas começaram a acreditar que o pior havia passado. Quando uma voz tímida ousou sugerir que um terrível castigo cairia dos céus para punir os atos vis cometidos pela população, já era tarde demais. Nada caiu do céu, exceto poeira e cinzas. O mal, afinal, veio pelo mar.

2.

O navio chegou ao amanhecer. Edmond de Luna, criador de labirintos e único sobrevivente da viagem, foi encontrado amarrado ao leme e queimado pelo sol. À primeira vista os pescadores o deram como morto, até perceberem o sangue nos pulsos amarrados e o hálito frio. Ele carregava um caderno consigo, mas antes dos pescadores conseguirem chegar perto, um grupo de soldados, à serviço do Bispo, assumiu o controle da situação.

O homem foi levado para o hospital e o caderno caiu nas mãos do ambicioso Inquisidor Jorge de León, um grande defensor da Igreja que acreditava que seus esforços o levariam a limpar o mundo do pecado e torná-lo um homem abençoado. Após uma breve inspeção, o Inquisidor verificou que o caderno estava escrito num idioma desconhecido e ordenou a chamada de um homem chamado Raimundo de Sempere.

Sempere tinha uma pequena lojinha e, como havia viajado muito durante a juventude, conhecia mais idiomas do que era prudente para um cristão. Sob ameaça de tortura, Sempere precisou jurar manter segredo sobre o conteúdo do caderno. Após identificar que os escritos eram persas, ele passou a noite traduzindo o segredo de Edmond de Luna, aventureiro e portador de uma maldição que traria um monstro à Barcelona.

3.

Trinta anos antes, Edmond de Luna havia saído de Barcelona em direção ao Oeste à procura de aventuras. Sua viagem pelo mar o levou à ilhas proibidas, princesas e criaturas desconhecidas, para aprender segredos da civilização enterrados pelo tempo e iniciar a si mesmo na ciência e arte da construção de labirintos, um talento que o faria famoso, lhe traria emprego e fortuna colocando-o à serviço de sultões e imperadores. Os anos passaram e o acúmulo de riquezas não significava mais nada para ele, pois já havia satisfeito sua ganância e ambição. Prestes a atingir a maioridade, ele disse a si mesmo que não ofereceria seus serviços para nenhuma outra pessoa, a não ser que recebesse em troca a maior das recompensas: conhecimento proibido.

Durante anos ele recusou trabalhos. Nada oferecido como pagamento parecia intrigante o suficiente. Ele achou que não haveria tesouro no mundo que já não houvesse conquistado, até ser chamado pelo Imperador de Constantinopla que o ofereceu um segredo milenar escondido por séculos. Entediado e tentado pela última oportunidade de reavivar a chama dentro de si, ele resolveu aceitar o convite.

Convencido que seu império estava prestes a chegar ao fim, e que a cidade de Constantinopla seria varrida da Terra, Constantine solicitou à Edmond a criação do maior labirinto já criado, uma cidade de livros escondida abaixo das catacumbas de uma catedral onde trabalhos proibidos e séculos de pensamentos poderiam ser preservados para sempre. Em troca, Edmond receberia um pequeno frasco de vidro que brilhava no escuro. O Imperador declarou ter esperado muitos anos até encontrar um homem merecedor do presente e o alertou que nas mãos erradas o frasco poderia tornar-se um instrumento do mal. “É uma gota de sangue do último dragão. O segredo da Imortalidade”, explicou.

4.

Edmond trabalhou no projeto por meses, ainda não satisfeito com o resultado. Depois de um tempo, ele se deu conta que não mais se importava com o pagamento, já que sua imortalidade seria assegurada pela maravilhosa biblioteca e não por um legendário elixir mágico. O Imperador foi paciente, mas, preocupado com o prazo, continuava a lembrá-lo do ataque iminente. Quando Edmond resolveu o problema, porém, já era tarde demais e o fim da cidade estava próximo.

Satisfeito pelos planos concluídos, o Imperador se deu conta que nunca conseguiria construir o labirinto sobre a cidade que carregava seu nome, então ajudou Edmond a fugir do local acompanhado de outros artistas e pensadores que estavam prestes a viajar para a Itália. Em troca, Constantine ofereceu o frasco para de Luna, mas, preocupado com o que poderia acontecer, deu-lhe também um medalhão. “Quando lhe ofereci este presente, estava apelando para sua mente ávida, para tentá-lo, meu amigo. Agora quero que também aceite este humilde amuleto, que um dia irá apelar para a sabedoria dentro de sua alma se o preço da ambição for alto demais”, disse.

Dentro da medalha havia um pingente com uma pequena pedra que parecia um simples grão de areia. “O homem que me deu isto me disse que era uma lágrima derramada por Jesus. Eu sei que você não é um homem levado pela fé, Edmond, mas a fé é encontrada quando não a estamos procurando e chegará o dia em que seu coração, e não sua mente, irá ansiar pela purificação de sua alma”. Não querendo contradizer o Imperador, Edmond amarrou o medalhão ao seu pescoço e partiu.

Viajando com um grupo de mercenários e quase jogado ao mar quando estes se deram conta que ele não possuía dinheiro algum que pudessem roubar, Edmond utilizou a estratégia de Scheherazade ao contar um pedaço de história por noite e deixá-los ansiando por mais. No seu tempo livre, começou a recordar suas experiências num caderno e, pensando em mantê-las longe de olhos curiosos, optou por escrevê-las em persa, um idioma que havia aprendido na juventude.

No meio da viagem, se depararam com um navio à deriva sem tripulação, mas com uma grande quantidade de vinhos que foi levada pelos mercenários a bordo. Proibido de beber uma gota sequer, Edmond continuou suas histórias, mas, pouco a pouco, a população começou a adoecer e, não muito depois, todos morreram, envenenados pelo vinho contaminado. Após colocar todos os piratas mortos dentro dos sarcófagos que havia no barco, Edmond temeu pela sua vida e foi tentado, pela primeira vez, a tomar o frasco que havia ganhado do Imperador.

Ao fazê-lo, sentiu uma sensação terrível apoderar-se de seu corpo e, por um momento, viu suas unhas transformadas em garras, mais mortais que qualquer espada perigosa. Ele, então, segurou o medalhão amarrado em seu pescoço e rezou pela salvação para um Cristo no qual não acreditava. A sensação foi desvanecendo e Edmond conseguiu respirar novamente ao ver suas mãos voltarem a ser humanas novamente. Ele fechou o frasco e repreendeu a si mesmo por ser tão ingênuo, vendo então que Constantine não havia mentido para ele. Ele também percebeu que isso não era pagamento ou benção de forma alguma. Era a chave para o inferno.

5.

Quando Sempere terminou de traduzir o caderno, o dia já havia amanhecido. O Inquisidor saiu da sala às pressas e Sempere foi levado para uma cela onde, teve certeza, nunca mais sairia vivo. Enquanto estava na masmorra, os homens do Inquisidor foram em direção ao navio para procurar o frasco e acharam o objeto escondido em um caixão de metal. Jorge de León estava esperando-os na Catedral, e, apesar de não terem conseguido encontrar a medalha com a lágrima de Cristo, o Inquisidor não se importou com o objeto, pois sentia que sua alma não precisava de purificação.

Com os olhos envenenados pela ganância, o Inquisidor agarrou o frasco e o bebeu de uma vez só. Alguns segundos se passaram e nada havia acontecido. Um tempo depois, Jorge de León começou a rir e os soldados ficaram temerosos que o homem houvesse perdido a sanidade. Para muitos que estavam presentes naquele momento, este seria o último pensamento em suas mentes. Eles viram o Inquisidor cair de joelhos quando um vento frio passou pela catedral, derrubando estátuas e acendendo velas.

Os homens viram sua pele ceder e, entre gritos agonizantes, a voz de Jorge de León sumiu no rugido da besta que emergiu de sua carne, rapidamente crescendo em sangrentas garras, asas e cauda pontuda. Quando a besta se virou e mostrou sua face de dentes afiados e olhos iluminados pelo fogo, os homens não tiveram coragem de correr e foram consumidos pelas chamas. A fera abriu suas asas e o Inquisidor saiu da catedral alçando voo pelos telhados de Barcelona.

6.

A besta deixou a cidade em pânico por sete dias e sete noites, derrubando igrejas e palácios, colocando fogo em centenas de prédios. O dragão crescia todos os dias, devorando tudo ao seu redor. No sétimo dia, quando todos achavam que a fera estava prestes a destruir a cidade e matar todos os habitantes, uma figura solitária veio ao seu encontro. Mal recuperado, Edmond de Luna subiu as escadas da catedral até o telhado e lá esperou até o dragão vê-lo. A fera se ergueu entre nuvens negras e fumaça, voando baixo pelos telhados de Barcelona. Havia crescido tanto que já era maior que a igreja da qual havia saído.

Edmond de Luna podia ver a si mesmo nos olhos que refletiam grandes quantidades de sangue. Quando o dragão abriu suas mandíbulas para engoli-lo, Edmond puxou o grão de areia amarrado no pescoço e pressionou no punho. Ele recordou as palavras de Constantine e disse a si mesmo que a fé o havia encontrado e que sua morte era um preço muito pequeno a pagar pela purificação da alma negra da besta, que era não mais do que a alma do homem. Edmond fechou os olhos e ofereceu a si mesmo.

Os que lembram daquele dia, dizem que o céu se dividiu em dois e um grande clarão iluminou o firmamento. A fera foi envolvida pelas chamas que saíram de seus dentes e ao balançar suas asas formou uma grande rosa de fogo que cobriu toda a cidade. O silêncio reinou e, quando a população abriu os olhos novamente, o céu estava negro e uma chuva fina de cinzas caía do céu cobrindo as ruas e ruínas queimadas da cidade com um manto branco que derretia ao toque e cheirava a fogo e danação.

7.

Naquela noite, Raimundo de Sempere conseguiu escapar de sua cela e retornou ao seu lar para descobrir que sua família e loja de impressão de livros havia sobrevivido à catástrofe. Ao amanhecer, o livreiro se aproximou do mar e encontrou a embarcação que havia trazido Edmond de Luna à Barcelona. Andando nas ruínas do navio, na luz fantasmagórica da manhã, encontrou o que estava procurando. O sal do mar havia parcialmente apagado algumas linhas, mas os planos para o grande labirinto de livros ainda estavam intacto.

Sua mente não podia acompanhar a complexidade e cálculos que tornavam aquela maravilha possível, mas ele disse a si mesmo que haveria outras mentes ilustres capazes de entender seus segredos. Até lá, até a época em que outro homem mais sábio que ele achasse os meios de salvar o labirinto, ele manteria os planos no seio familiar. Algum dia, ele não tinha dúvidas, encontraria o criador de labirintos digno de tal desafio.

Minhas considerações

Primeiro, peço que desculpem a tradução que, claro, deixa a desejar, principalmente por tratar-se apenas de um resumo. A narrativa do Zafón é maravilhosa e caso você possa ler no original, aconselho que o faça. Agora vamos rapidamente ao que eu achei do conto (lembrando que isto NÃO é uma resenha), apenas um papo breve e descontraído.

Zafón mata, em parte, a nossa curiosidade sobre a história. Por mais que Rose of Fire nos conte um bocado do que aconteceu, não sabemos exatamente quem a família Sempere encontrou para construir o labirinto, nem exatamente quando. Se isto é mencionado em algum livro, por favor, me iluminem porque realmente não lembro.

Falando nos Sempere ♥ achei o máximo saber que eles tiveram um papel chave na história. Não é a toa que são guardiões do segredo, eles tiveram tudo a ver com ele. A presença do David Martín (protagonista de O Jogo do Anjo), ainda que pequena, também me animou. Tudo a seu respeito é misterioso e sombrio, e achei apropriado que o relato tenha sido narrado por ele.

Apesar de ter curtido de modo geral, realmente gostaria que Zafón tivesse escrito um romance mais longo, acho que tinha material para isso. Ele passa superficialmente em tudo que é narrado em Rose of Fire, e, apesar do meu “longo resumo” acima, isso aí é, basicamente, toda a história. Vocês não imaginam o quanto é curta, e o quanto isso é frustrante para os fãs (quero mais!).

O conto tem 29 páginas no meu Kobo, então não faço ideia do tamanho real que ocuparia num livro físico, imagino que seria ainda menor. Para os fãs, no entanto, qualquer poucas páginas, por mais breve que sejam, já é um presente e tanto. Principalmente quando sabemos que nada nos resta a esperar até que outro livro seja lançado, e sabe-se lá o tempo que irá demorar para chegar ao Brasil.

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2 Responses to Rose of Fire: Um resumo sobre a origem do Cemitério dos Livros Esquecidos

  1. Conheci o Zafon recentemente, mas já li todos os livros (e-books) disponíveis em português e de todos os cenários criados por ele, o ‘Cemitério’ é, talvez, o mais fantástico. Achei bem interessante o conto, mas, na minha opinião caberia um romance inteiro sobre o labirinto onde os livros são salvos para a posteridade; para leitores apaixonados que os escolhem (ou são escolhidos por eles). Obrigado pela divulgação desse conto. Abraços.

    P.S.: Um colega me disse que vem por aí mais um volume relacionado à Sombra do Vento.

    • Eduarda Menezes disse:

      Também concordo que mais sobre o Cemitério seria muito legal! =)
      Ah, vem sim! Tô até relendo os livros por conta disso, estava esperando esse 4º há um tempão. Sai mês que vem (novembro) lá fora, e aqui a Suma de Letras ainda não se pronunciou, mas deve chegar em breve também!
      Abraço!

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