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by • março 27, 2014 • ResenhasComments (7)1037

[Resenha] Stieg Larsson: A verdadeira história do criador da trilogia Millennium, de Jan-Erik Pettersson

Stieg Larsson

Uma das melhores e mais esclarecedoras experiências de leitura que tive há tempos, Stieg Larsson: A verdadeira história do criador da trilogia Millennium me abriu os olhos não só para uma situação completamente fora do meu conhecimento, mas também para a vida significativa de uma pessoa verdadeiramente extraordinária.

Muito mais que uma biografia, o livro é um relato histórico-político da Europa, com foco na Suécia, ao longo do século XX, passando pelas guerras mundiais que a marcaram, principalmente a segunda. O autor reserva páginas para descrever ao leitor os vários conflitos e revoluções acontecidos no país, apenas para nos explicar como o Larsson estaria posteriormente envolvido e qual seria seu papel e participação em cada um deles.

“Desde o turbulento ano de 1968, quando tinha apenas catorze anos, ele já era politicamente comprometido. Usava no peito um emblema redondo púrpura com uma estrela dourada, o símbolo do movimento FLN (Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul). Era relativamente jovem para se engajar em política com tanto fervor.”

Confesso que eu tinha uma visão completamente ignorante sobre o término do nazismo, achando que havia sido quase totalmente erradicado após a 2º Guerra Mundial com apenas alguns poucos resistentes aqui e ali. Não poderia estar mais enganada. Fosse através do nazismo, ou simplesmente ojeriza à imigrantes, negros, mulheres e gays, o fato é que o preconceito radical permaneceu extremamente forte na vida dos suecos, e Stieg dedicou sua vida para combater as diversas e constantes injustiças, o que acabaria por torná-lo um dos maiores especialistas sobre a extrema direita da Europa.

Fiquei realmente encantada em conhecer o lado humanitário de uma pessoa extremamente determinada a defender seus ideais e lutar pelo direito dos mais fracos e marginalizados. Engajado politicamente desde a adolescência, Larsson tornou-se um dos nomes mais ameaçados da Suécia por não dar trégua a grupos nazistas e fascistas e lutar constantemente contra a xenofobia generalizada que permaneceu forte em seu país durante todo século.

“Provavelmente era a pessoa mais ameaçada em toda a Suécia. Seu nome aparecia em websites nazistas da Europa inteira. Recebia constantes ameaças sob a forma de cartas anônimas e mensagens telefônicas. Lidava muito bem com isso porque aprendera a ser cuidadoso e adotava medidas de seguranças rigorosas. Quando sabia que estava sendo vigiado chegava atrasado de propósito às reuniões. Quando ia  um café, preferia sentar-se de costas para a parede.”

Sua vida foi marcada pelos conflitos nos quais se envolvia, fosse ativamente ou através de denúncias na revista Expo, da qual foi cofundador e editor chefe, que posteriormente serviria de inspiração para a criação da fictícia Millennium. Jornalista engajado, Stieg vivia em constante vigilância, mas o medo de ser assassinado não refreava sua determinação em denunciar os grupos extremistas que atentavam regularmente contra sua vida.

O livro é bem político e apresenta um panorama muito claro da situação da Suécia e os dois lados da constante luta entre esquerda x direita. Alguns podem achar pouco interessante, mas asseguro-lhes, todavia, que tudo é passado de modo extremamente fascinante, e mesmo eu, pouco interessada em política, não conseguia parar de ler, principalmente por ficar claro o nível de coragem e determinação exigido do grupo do qual Stieg fazia parte e era um dos líderes mais ferrenhos.

Ao final do livro é notável a influência que sua vida profissional exerceria em seus romances. Jan-Erik Petterson, autor da biografia, reserva as últimas páginas para falar da ascensão do gênero policial na Suécia que alcançaria seu apogeu com a trilogia Millennium. Adorei compreender o que inspirou a criação dos enredos e personagens, entender um pouco mais sobre o papel retratado pela Lisbeth, afinal, estamos falando de uma das maiores heroínas da atualidade.

“Um Stieg Larsson encantado lhes disse que o terceiro volume estava quase pronto e que ele via os livros como uma trilogia sobre a vida de Lisbeth Salander. E haveria mais pela frente. Ele planejava uma série de 10. (…) Ele não tinha a menor dúvida de que o que escrevera era bom. (…) Fora escrevendo sem pensar muito na publicação, e de repente descobrira que tinha quase três volumes debaixo dos braços.”

Terminei a leitura fascinada pela figura do Stieg e tudo aquilo que ele representou. Admirada por todas as coisas que ele teve que abrir mão, pela sua bravura, coragem e humanidade. É triste saber tudo que perdemos quando o pior aconteceu, pois fica claro o quanto Stieg Larsson ainda tinha a oferecer não só aos seus leitores, mas ao país. Sua vida pode ter sido curta, mas foi, acima de tudo, significativa e um exemplo magnífico da influência que um ser humano bem intencionado pode exercer e o quanto pode fazer para mudar o quadro obscuro ao seu redor. Realmente inspirador.

Título original: Stieg
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 294
Gênero: Biografia/Não-ficção
[rating: 5/5]
Cedido em parceria com a Cia das Letras

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7 Responses to [Resenha] Stieg Larsson: A verdadeira história do criador da trilogia Millennium, de Jan-Erik Pettersson

  1. Clege disse:

    Que história fantástica! Isso explica toda a intensidade que ele coloca nos livros! Amei a página! Parabéns!

  2. Muito boa a resenha, já tinha ouvido falar do livro e fiquei muito interessada, a Trilogia Millenium é uma das minhas favoritas. O autor é muito forte e a história dele é incrível, vou ler com certeza.
    Tudo indica que outro autor sueco vai continuar a Trilogia Millenium, o que acha disso?
    beijos

    • Eduarda Menezes disse:

      Obrigada, Thamiris!
      Fiquei sabendo e realmente não gostei da ideia. Não é a mesma coisa, né? Cada um com seus personagens!
      Beijo!

  3. Eduardo disse:

    Olá, minha xará!…

    Parabéns pela ótima resenha! Assim como vc, sou um traça-livros e ñ sabia que a biografia do Stieg tinha sido lançada por aqui. Vou comprá-la urgente. Eu ainda não li o último da trilogia, puro medo de finalizar ‘os causos’. Os outros dois eu adorei.
    Já que curte cinema, indico pra vc a leitura de ‘Kubrick – De Olhos bem Abertos’, do roteirista Frederic Raphael, sobre a adaptação do roteiro do filme De olhos bem fechados…é sensacional.
    Um abraço e parabéns pelo blog…

  4. Fran Lelis disse:

    A trilogia Millenium é uma pedrada de tão bom! Eu não conhecia essa biografia do autor, e sendo historiadora me interessou ainda mais por ter todo o contexto histórico-social da Europa que gerou o engajamento de Larsson e consequentemente a criação da trilogia e da Salander.
    Resenha ótima!
    Já vou colocar o livro na minha lista de próximas aquisições!

    Beijos!

    http://corujadequinta.blogspot.com.br/

  5. Quero ler a biografia. Até hoje acho que ele foi assassinado.

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