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by • janeiro 21, 2015 • ResenhasComments (14)3855

[Resenha] Uma Longa Queda, de Nick Hornby

Extraindo o melhor possível do gênero dark comedy (humor negro), Nick Hornby mostra que mesmo assuntos sérios e polêmicos podem ser discutidos de uma forma divertida sem que haja qualquer perda no quesito profundidade. Ao retratar os dilemas e destinos de quatro personagens distintos que se conhecem na noite de ano-novo, todos prestes a saltar de um prédio em Londres, o autor desenvolve o nascimento de um laço improvável surgido através do desespero.

Um longa quedaA fluidez da narrativa de Hornby é o que mais me conquista em suas histórias. O autor faz ótimo uso da escrita para criar diálogos e personagens obsessivos, complexos e repletos de personalidade. Os quatro protagonistas recebem igual atenção ao longo do livro, com pontos de vista alternados em primeira pessoa, um artifício necessário já que nos leva a conhecer a fundo a mente do elenco e nos familiariza com as tragédias pessoais de cada um.

“(…) ia voar de cima daquela porra de terraço feito o Super-Homem. Só que, claro, as coisas não aconteceram desse jeito.”

O quarteto não tem nada em comum, à parte a questão suicida, e é formado por uma jovem emocionalmente desmantelada que fala o que vêm à cabeça; um ex-vocalista que não vê mais sentido na vida após o término de sua banda e o fim do relacionamento com a namorada; uma mãe de meia-idade com um filho deficiente; e um famoso apresentador de tv que caiu em desgraça após dormir com uma menina de 15 anos e ir preso.

“A Maureen e eu não podíamos conversar sobre por que estávamos tão infelizes a ponto de querer que nossos cérebros virassem milk-shake do McDonald’s espalhado na calçada lá embaixo, então, em vez disso, falamos da escada.”

Por mais distintos que pareçam, a dinâmica criada pelo autor é incrível. Hornby altera muito bem as vozes sem que o leitor se sinta confuso em momento algum sobre qual o narrador da vez. Por mais que os personagens carreguem dezenas de defeitos – similar ao que acontece no livro Alta Fidelidade, também do autor, me senti afeiçoada ao elenco e interessada em seu futuro.

Uma longa queda (2)

A temática do suicídio está constantemente presente nas conversas – afinal, é basicamente a única coisa que têm em comum – mas era especialmente divertido acompanhar a forma como, em meio às tragédias e tristezas pessoais, seus diálogos invariavelmente convergissem para um lado cômico inesperado; aquele fim do poço tão grande que só nos resta rir ou chorar, então por que não escolher o primeiro? A verdade é que gargalhei alto em diversos momentos, tudo por conta da habilidade do autor em expor nossos dilemas ao ridículo e, ainda assim, mostrar o quanto e porquê nos afetam.

“Como é que tem gente que consegue, saca, não falar palavrão? (…) Vou dizer pra vocês quem são as pessoas mais admiráveis desse mundo: âncoras de rádio e tevê. Se fosse eu, diria algo do tipo: “E os filhos de uma puta enfiaram a porra do avião nas Torres Gêmeas”. Como não fazer isso sendo humano?”

Com um acordo tácito de prorrogarem o prazo de suas mortes até uma data específica, me senti curiosa em relação ao que o final do livro traria. O autor aborda a expectativa x realidade de nossas vidas e como a imprevisibilidade do destino nos leva a lugares impensados. É bem claro o quanto Hornby tenta fugir do clichê ao máximo (e até brinca com isso), mas acaba dando o braço a torcer aqui e ali em alguns quesitos, e, ainda assim, traz um desfecho realista ao que foi passado. Não há como deixar de aplaudir a coragem de escrever uma comédia sobre um tema tão sensível. Mas se alguém pode fazê-lo, certamente é Nick Hornby.

Obs: O livro ganhou uma adaptação para os cinemas em 2014.

Título original: A Long Way Down
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2005 (esta edição: 2014)
Número de páginas: 336
Gênero: Romance contemporâneo
[rating: 5/5]
Cedido em parceria com a Cia das Letras

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14 Responses to [Resenha] Uma Longa Queda, de Nick Hornby

  1. Oi, td bom?

    Eu me surpreendi com esse livro em uma promoção no final do ano e comprei. Acho que deve ser uma história muito legal (por mais estranho que isso soe, em se tratando de suicídio haha)

    Beijos!
    Arrastando as Alpargatas

  2. Camila K. disse:

    Esse livro deve ser muuuuito bom! Com certeza um autor que consegue pegar um assunto tão sério quanto suicídio e transformar a situação num aprendizado divertido, merece aplausos.
    Gostei da dica, Duda!

    Beijos!
    Camila | http://www.lendoporai.com

  3. Nessa disse:

    Oi Duda

    A cada dia estou conhecendo mais livros no seu blog, adoro.
    Não conhecia este autor e nem o livro, mas achei bem diferente e interessante a premissa dela. Fiquei com vontade de ler este e conhecer o outro livros do autor.
    Não assisti ao filme, vou procurar..

    Beijinhos

  4. Esse está na minha lista de leituras.

    Do Hornby só li o High Fidelity e o The Polysyllabic spree (melhor título possível para um monte de resenhas literárias), gostei muito de ambos. Acho a prosa do Hornby deliciosa para leitura e é um dos escritores que consegue melhor caracterizar nossa geração moderna.

    O projeto gráfico da editora das letras pareceu bem interessante.

    Duda gostei bastante da resenha, resumiu bem o enredo do livro e deu aquele gostinho de água na boca para ler o livro.

    Senti falta de uma foto do interior do livro, para ver o projeto gráfico – fonte, tamanho da fonte, etc… e de, novamente, questões sobre a tradução. Ela foi bem feita?

    Continue com o bom trabalho

    • Eduarda Menezes disse:

      O Hornby é um excelente escritor. Sempre tenho vontade de ler algo dele quando surge.
      Obrigada, Leonardo! A tradução está boa sim. Não sei se você leu quando te respondi da outra vez, mas só costumo comentar a tradução quando vejo que foi ruim. Acho que uma boa tradução é, via de regra, o mínimo que uma editora pode fazer, então vejo as ruins como exceções e daí comento.
      A diagramação por dentro é bem confortável.
      Obrigada pelo incentivo!

  5. Shadai disse:

    só li o clássico Alta Fidelidade do Hornby, mas um dia ainda leio outro, e quem sabe seja esse que parece muito bom; apesar que o trailer do filme não me conquistou.

    • Eduarda Menezes disse:

      É ótimo, Shadai! Espero que goste =)

      • Shadai disse:

        voltei para dizer que assisti ao filme essa semana, e achei apenas bonzinho.
        sei que livros e filmes são bem diferentes, mas como a história é a mesma, acho que vou acabar não lendo esse livro então.

        • Eduarda Menezes disse:

          hahaha eu gostei do filme, Shadai! Apesar de terem alterado váárias coisas. Creio que você gostaria mais do livro, é menos clichê. Mas quando a gente assiste antes, perde um pouco a vontade mesmo.

  6. Duda,

    A sua resenha desse livro me conquistou.

    Adorei o tema do livro e realmente estou curioso para saber o motivo que levou cada personagem ao telhado para cometer o suicídio e ainda mais curioso para saber como o livro termina.

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