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by • março 12, 2015 • Resenhas, VídeosComments (3)3329

[Resenha] Contos Fantásticos: O Horla e outras histórias, de Guy de Maupassant

Meu único contato com o escritor francês Guy de Maupassant havia sido através de uma breve história de título A Mão, publicada no livro A Causa Secreta e Outros Contos de Horror onde pude antever seu talento para tramas misteriosas de dubiedade sobrenatural deixada a cargo da imaginação do leitor, levado a questionar a veracidade e realidade dos fatos apresentados. Em Contos Fantásticos – O Horla e outras histórias é possível perceber essa estratégia ainda mais profundamente.

“E esse terror confuso do sobrenatural que habita o homem desde o nascimento do mundo é legítimo, pois não é outra coisa senão aquilo que nos permanece oculto.”

Nos 11 contos ao longo do livro, o autor brinca com a linha tênue que separa imaginação x superstição x realidade, colocando seus personagens em situações incomuns e fazendo-os duvidarem da sanidade ao aventurar-se em experiências sobrenaturais inexplicáveis. Tais tramas possuem certo magnetismo pelas possibilidades daquilo que será contado ao leitor. Com doses de suspense e mistério, adentramos o universo obscuro de Maupassant, que se mostra mestre na arte de criar climas sombrios mesmo nos textos mais breves.

Há de se destacar, naturalmente, as diferentes formas de contar uma mesma história usadas pelo autor em um dos seus maiores sucessos: O Horla. Duas versões do mesmo conto estão presentes neste livro, onde somos levados a conhecer o caso de um homem atormentado por um ser aparentemente invisível e tirar nossas conclusões, ou mesmo mudar de opinião, de acordo com os fatos apresentados. Independente do resultado alcançado, o caráter psicológico permeia a narrativa de tensão tornando-a um relato extremamente fascinante sobre a mente de um homem, aparentemente lúcida, que enfrenta algo além de seu alcance.

Índice dos contos presentes no livro. A folhinha azul são marcações/anotações que fiz

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Além das versões de O Horla (palavra inventada pelo autor para nomear a criatura indefinida), o livro traz o conto Cartas de um Louco, uma introdução às versões sobre o ser invisível que serão exploradas, com um texto dos mais interessantes sobre as limitações dos órgãos humanos e como afetam nossa forma de ver o mundo. O raciocínio do personagem, dado como insano, possui certa lucidez incontestável, expandindo as possibilidades do que entendemos por sobrenatural considerando o termo ao pé da letra, ou seja, aquilo não natural ao homem por limitações intrínsecas do nosso corpo. Será por isso fantasmagórico? Ou essa explicação pode adquirir um caráter puramente científico?

” (…) a humanidade poderia existir sem a audição, sem o paladar e sem o olfato, quer dizer, sem nenhuma noção do ruído, do sabor e do odor. Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em torno de nós uma infinidade de outras coisas de que nunca suspeitaremos por falta de meios de constatá-las.”

Independente da sanidade de quem o discorre, o raciocínio é válido e expande os horizontes do pensamento humano sobre o que o rodeia. A leitura gradual desses três contos – Cartas de Um Louco, O Horla (1) e O Horla (2) –  é altamente cativante, especialmente pelo seu derradeiro final apresentado na segunda versão, que complementa grandemente a primeira, reafirmando o caráter psicológico trabalhado pelo autor ao longo do caminho.

Apesar do claro destaque desses três contos, todas as demais histórias apresentam cenários promissores e têm em comum o questionamento dos personagens acerca de suas faculdades mentais, perturbadas por eventos extrassensoriais ocasionados por situações atípicas, estranhas ao mundo natural. Escritos ao longo da segunda metade do século XIX, seus contos concisos o fizeram um dos pais da moderna short story (história curta), serviram de inspiração para outros nomes importantes da literatura (como H. P. Lovecraft), e são precursores da famosa e disseminada literatura fantástica.

Título original: Le Horla et autres nouvelles fantastiques
Editora: L&PM Pocket
Número de páginas: 136
Ano: Séc. XIX (vários)
Gênero: Contos/Terror

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3 Responses to [Resenha] Contos Fantásticos: O Horla e outras histórias, de Guy de Maupassant

  1. Olá! Posso perguntar sobre seu e-reader? É um tablet mesmo?Pergunto porque vi que a capa do livro é colorida. Quero comprar um e-reader, mas em preto e branco não funciona para ler quadrinhos. Enfim, gosto muito dos seus vídeos e posts. Abraço! <3

    • Eduarda Menezes disse:

      Eu tenho um e-reader Kobo, mas ultimamente tenho lido mais no app do Kobo no iPad rs
      No tablet dá pra ler quadrinhos numa boa, mas no e-reader preto e branco é meio ruim mesmo =/ Apesar de ser ótimo para livros normais, já que não cansa a vista nunca.
      Fico feliz em saber que gosta, Stephanie! Muito obrigada =)
      Abraços!

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