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by • maio 14, 2015 • ResenhasComments (4)2098

[Resenha] A Mesa da Ralé, de Michael Ondaatje

Contado através de um voz adulta relembrando uma viagem de navio na infância, Michael Ondaatje (O Paciente Inglês), aclamado escritor canadense nascido no Sri Lanka, se vale de alguns locais visitados em sua vida, além da experiência pessoal de adaptação a uma nova cultura, para relatar a história ficcional do garoto Michael, de 11 anos, que deixa o Ceilão (República do Sri Lanka) para empreender uma viagem sem acompanhantes rumo à Inglaterra.

A mesa da raléCom uma voz saudosista, o protagonista revisita seus amigos e aventuras ao longo do relato, impingindo o tipo de beleza adquirida com o passar dos anos quando a força da distância concede um novo olhar ao que está sendo contado; aquela sensação que só temos quando há muito perdemos a inocência da infância e podemos visualizar o que se passou com outros olhos, valorizando o que é devido e redescobrindo momentos e situações antes despercebidos.

“Só agora, anos depois, tendo sido instado por meus filhos a descrever a viagem, é que ela se tornou uma aventura quando vista pelos olhos deles, e até mesmo algo significativo na minha formação.”

Esse olhar adulto em uma história vivida por uma criança foi o grande responsável por conceder tamanha força ao livro. Ao experimentar pela primeira vez a liberdade adquirida pela ausência de supervisão, Michael irá contar como eram os seus dias a bordo do Oronsay, suas refeições no que acabaram por chamar de a mesa da ralé (o local de menor prestígio no refeitório) e a gama de personagens peculiares e exóticos que escondiam muito mais do que visto num primeiro olhar.

“Compreendemos assim algo tão simples quanto importante: que nossa vida podia se expandir graças a pessoas estranhas mas interessantes que passariam por nós sem gerarem nenhum envolvimento pessoal.”

Nas perambulações pelo navio, o trio de amigos Michael, Ramadhin e Cassius passarão ao leitor o olhar de crianças pouco levadas a sério e, por tal, na perfeita condição de observadores da vida em alto mar. Conversas entrecortadas, personalidades excêntricas e o mistério de um prisioneiro a bordo são algumas das atividades acompanhadas pelos garotos como parte de suas rotinas. Os meninos, completamente diferentes entre si, ressaltam os laços formados por uma situação vivida em comum que acabou unindo-os pela idade e companheirismo, deixando uma marca em suas vidas independente da distância dos anos vindouros.

A mesa da ralé (2)

Já na sinopse podemos perceber diversos fatos comuns à vida de Ondaatje. Ambientado em 1954, o protagonista, com seus 11 anos de idade, tem o mesmo nome e idade do autor na época, assim como local de nascimento, posterior mudança para Inglaterra e profissão escolhida quando adulto. As coincidências me fizeram imaginar o quanto da trama poderia ter acontecido. No entanto, Ondaatje deixa claro, ao final, tratar-se de um relato ficcional, influenciado por alguns lugares percorridos na sua infância. Real ou não, suas palavras possuem o tipo de veracidade que os bons escritores conseguem passar em suas histórias e talvez a mescla dos dois tenha apenas fortalecido o relato.

“Certo dia eu disse a alguém que aquela viagem fora uma passagem ingênua dentro dos limites estreitos da minha juventude. Apenas três ou quatro crianças no centro de uma travessia cujo rumo bem definido e destino certo sugeriam nada haver a temer ou a ser desvendado.”

Com uma narrativa bela e reflexiva, é fácil para um adulto se identificar com as palavras saudosas de um homem que cresceu, mas reconhece a força de seu olhar juvenil ao revisitar um momento que irá lhe proporcionar uma nova visão, madura e adulta sobre os acontecimentos de um período de sua infância. É nesse novo descobrimento que Michael irá recapitular os ensinamentos que o cotidiano marítimo entranhava no seu ser, ainda jovem demais para entender de todo essa transformação. São cores, momentos e pessoas que passaram pelo caminho do personagem e contribuíram para sua formação. O tipo de história que, independente de lugar, época ou cultura, remete ao passado de todos nós.

“Foi sempre gente estranha como eles que, nas várias mesas da ralé de minha vida, se revelaram capazes de me fazer mudar.”

Título original: The Cat’s Table
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 288
Ano: 2011 (esta edição: 2014)
Gênero: Romance de formação
[rating: 5/5]
Cedido em parceria com a Companhia das Letras

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4 Responses to [Resenha] A Mesa da Ralé, de Michael Ondaatje

  1. Nessa disse:

    Oi Duda
    Achei este livro bem diferente, principalmente este enredo dele. O contexto parece interessante, mas não fiquei assim com aquela vontade de ler, sabe? Na verdade, não sei se é o tipo de hostória que me prenderia.
    Mas gostei da sua resenha, pois deu uma visão muito boa do que se trata o livro.

    Beijos

    • Eduarda Menezes disse:

      Obrigada, Nessa! É um livro relativamente linear, mas muito sensível e bem escrito. Achei uma leitura tocante!
      beijos

  2. Laís disse:

    Oi Duda

    Oi Duda

    É engraçado como as coisas parecem diferentes na infância, os sabores, cheiros e a forma como enxergamos as coisas.
    As vezes temos uma lembrança de quando éramos criança e quando voltamos adultos já não é mais a mesma coisa.
    Não tinha ouvido falar desse livro ainda, mas fiquei super curiosa, adoro aventuras que se passam em navios.

    Beijossss

    • Eduarda Menezes disse:

      São diferentes mesmo! Às vezes é até como se enxergássemos de uma dimensão diferente, uma nova perspectiva.
      Eu adoro esses livros ‘redescobrindo a infância’, romances de formação, de modo geral, etc. E esse é escrito de uma forma muito bonita. Espero que curta =)
      beijos

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